COMO MUDAR SUA MENTE? REFLEXÕES PROVOCATIVAS SOBRE A SÉRIE DO NETFLIX QUE AINDA VAI DAR O QUE FALAR (Parte 2)
Retomando a conversa sobre a série do Netflix Como mudar sua mente, lançada em julho desse ano, sobre os potenciais benefícios terapêuticos das substâncias psicodélicas, nessa segunda parte do texto vou trazer algumas "reflexões provocativas" inspiradas no seu conteúdo.
Lembrando que, se você ainda não assistiu aos quatro capítulo da série, esse texto traz alguns spoilers.
(Para reler a Parte 1 do texto, clique AQUI).
(Para assistir ao trailer oficial da Série, clique AQUI)
Uma abordagem abrangente?
A meu ver, faltou abordar alguns aspectos essenciais como:
- Pesquisas realizadas a partir de outros campos de conhecimento científico;
- Informações sobre outras plantas psicoativas usuais no mundo contemporâneo;
- A perspectiva de outros usuários de plantas enteogênicas (para além daqueles que fizeram parte de estudos clínicos);
- E a importância do contexto do ritual e de integração com os conhecimentos tradicionais.
Bora dialogar um pouco mais sobre isso?
A ciência psicodélica para além da pesquisa médica
É fato que também existem pesquisas e informações científicas sobre plantas enteogênicas e substâncias psicodélicas oriundas de outros campos acadêmicos, para além da área médica, na qual se centra a série.
A meu ver a “ciência psicodélica” deveria ser considerada interdisciplinar. Ou, melhor ainda, transdisciplinar – por uma questão de princípios.
Então a série me deixou com a inquietante vontade de querer saber sobre o que outras áreas da ciência estão estudando e descobrindo sobre o assunto!
Pela minha formação, também me interesso por questões históricas, antropológicas, sociológicas, psicossociais e afins envolvendo o estudo e o uso de psicodélicos.
Busco me informar sobre aspectos ambientais relacionados com a conservação de áreas de ocorrência natural de plantas com propriedades enteogênicas e eventuais impactos existentes.
E acho muito instigantes algumas pesquisas que indicam o potencial de experiências com plantas enteógenas em despertar nas pessoas uma consciência ecológica.
A série traz um pouco desses temas ao abordar o uso do Peiote, no capítulo 4. Mas há muito mais a ser explorado...
A riqueza de plantas enteogênicas
A série começa a contar a história da ciência psicodélica tendo como ponto de partida a descoberta do LSD, em 1943. E as pesquisas na área médica, realizadas a partir da década de 1950, com foco nas quatro substâncias mais usuais no contexto norteamericano.
Mas a história da relação humana com espécies de plantas e animais dotados de propriedades psicoativas é muito mais antiga.
E elas são muitas!
O próprio “pai do LSD”, Albert Hofmann, sabia bem disso.
Junto com o etnobotânico Richard Evans Schultes, ele escreveu um livro que se tornou um clássico sobre as origens e a geografia do uso de substâncias psicoativas entre povos nativos de todos os continentes – a obra Plantas de los Dioses.
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| Las plantas de los dioses |
Esse foi um livro muito significativo na minha trajetória profissional e pessoal. Os relatos e registros sobre as viagens de Schultes pela Amazônia são incríveis. E sua trajetória de vida e legado, muito inspiradores.
Muitas das substâncias estudadas no contexto contemporâneo já tinham importância sagrada antes da era cristã, não só no continente americano.
Ainda na atualidade o uso de enteógenos pode ser encontrado, além das Américas, desde a Sibéria, passando pela Índia, Europa, Indonésia, Polinésia e África.
Da África vem a Iboga, originária do culto Bwiti (Tabernanthe iboga), que vem sendo estudada para o tratamento de vícios e dependências químicas, inclusive no Brasil (veja AQUI).
Da Ásia vem a Cannabis sativa e o cogumelo Amanita muscaria.
Do Havaí vem as sementes Ololiuhqui (Rivea corimbosa).
Dos Andes vem o cacto Wachuma ou San Pedro (Echinopsis pachanoi).
Da Floresta Amazônica vem a Ayahuasca, uma combinação entre o caule de um cipó (Banisteriopis spp.) e as folhas de um arbusto (Psychotria spa).
Do semi-árido nordestino brasileiro vem a Jurema sagrada (Mimosa hostilis).
Isso para citar apenas algumas das plantas enteogênicas que mais se destacam na atualidade.
Para o historiador Henrique Carneiro, o consumo de substâncias psicoativas é tão amplo na história e tão propagado nas mais diversas culturas que se pode considerar que ele faz parte da própria condição humana.
E muitas delas são caracterizadas pelo caráter sacramental, estando associadas a saberes complexos e profundos!
O papel dos conhecimentos tradicionais
É importante contextualizar que, quando o uso e as pesquisas com psicodélicos foram proibidos na década de 1970, foram também banidos e criminalizados os usos tradicionais das plantas sagradas.
O que gerou e ainda gera consequências graves para determinados grupos sociais.
Isso demanda compreensões amplas da problemática, envolvendo, por exemplo, a discussão sobre direitos de acesso ao patrimônio genético e aos conhecimentos tradicionais associados.
Pois se o LSD e o MDMA foram descobertos “ao acaso” em laboratório pelas mãos de cientistas, esse não é o caso da psilocibina, da mescalina e do DMT, que derivaram de plantas de uso ancestral.
Aliás, convém lembrar que o proibicionismo do uso de plantas sagradas pelos povos originários começou muito antes do último meio século. Esse é um processo que acontece desde o início da colonização europeia sobre outros continentes.
Além do genocídio e da escravização dos povos nativos, que acompanharam esse movimento, a visão cristã considerava as tradições ancestrais como bruxaria, satanismo ou, no mínimo, heresia.
Os conhecedores de ervas medicinais e plantas sagradas foram duramente perseguidos e, em muitos casos, exterminados.
Uma das coisas que mais “me doeu” ao assistir a série do Netflix foi o desfecho da vida de Maria Sabina (1894-1985) - a curandeira mexicana do Povo Mazateca, da região de Oaxaca no Sul do México, que se tornou famosa por ser considerada “a pessoa que apresentou os cogumelos sagrados ao mundo”.
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| Maria Sabina - a mãe dos cogumelos sagrados |
Diz a história que, em 1952, ela foi a primeira a permitir que ocidentais participassem de cerimônias de cura Mazateca, até então restritas.
E cedeu as amostras de cogumelo que foram levadas para os laboratórios e utilizadas para sintetizar a psilocibina.
A série retrata que, ao ser apresentada à versão de laboratório da substância, ela teria afirmado que o espírito sagrado dos cogumelos mágicos estava presente nas cápsulas.
Mas eu tenho as minhas dúvidas se isso não foi tirado de contexto e usado para tornar equivalente coisas que não são comparáveis.
Ou, hipótese levantada pela minha amiga Silvana, que ela tenha realmente dito isso para que os brancos se contentassem com suas pílulas e deixassem os cogumelos em paz.
O que, infelizmente, acabou não acontecendo...
Mas essa história parece ser um pouco mais complexa do que o abordado na série, envolvendo também apropriação indébita de cantos e conhecimentos tradicionais, além da biopirataria. Então vou deixar para abordá-la em um texto próprio futuramente.
O quarto capítulo da série do Netflix, que trata da mescalina, é o única a abordar um pouco dos aspectos ritualísticos e comunitários relacionados ao uso de plantas enteogênicas – no caso o Peiote.
Esse são aspectos, no entanto, considerados fundamentais pelos povos originários. E também por linhas religiosas que se constituíram a partir do uso sacramental dessas substâncias.
Acho questionável que a ciência médica simplifique e reduza as complexas plantas sagradas a um único ou alguns poucos princípios ativos.
E atribuam o seu poder terapêutico apenas às substâncias em si, dessacralizando-as do contexto cerimonial.
A importância dos rituais
Quem conhece um pouco do universo das plantas de poder a partir de dentro, sabe que elas não são apenas um apanhado de substâncias químicas que agem sobre o cérebro.
São espíritos vivos!
As tecnologias tradicionais ensinam a dialogar com esses espíritos.
A invocá-los e pedir permissão para entrar nos seus domínios.
A firmar campos de proteção para a segurança da experiência de abertura espiritual.
E a conduzir a energia através de cantos sagrados.
Nem a ciência médica convencional, nem o movimento psicodélico da contracultura parecem ter levado isso em consideração...
O que aconteceu na década de 1960 com o uso recreativo indiscriminado dessas substâncias deveria servir de alerta para que a importância do contexto ritual fosse também considerada nas avaliações científicas.
Michael Pollan até dialoga um pouco com esse campo e mostra respeito pelas tradições nativas.
Mas esse não é o caso de muitos cientistas da “nova ciência das substâncias psicodélicas”.
Como indicam relatos de quem participou dos congressos mundiais de Ayahuasca, há mais do que um divisor de águas entre esses dois grupos – os cientistas das "ciências hard" X os simpatizantes dos povos tradicionais.
Uma verdadeira muralha os separa e os impede de minimamente dialogar.
O que eu acho uma pena!
Pois a “nova ciência” teria muito a ganhar se embasasse suas teorias não apenas no acúmulo de poucas décadas de experimentos limitados.
Mas fosse beber também da fonte dos conhecimentos acumulados durante séculos e até milênios por diferentes tradições.
Não apenas para “se apropriar das substâncias” e sintetizá-las ou patenteá-las!!!
Mas para realmente dialogar com esses saberes ancestrais que tem muito a ensinar. E também um tanto para aprender... pois nem tudo são flores nesse meio.
Por uma abordagem integrada e integradora
A série Como mudar sua mente inicia com Pollan contando como ele próprio tinha uma visão estigmatizada dos psicodélicos, fruto do seu meio social e contexto cultural.
E segue relatando como ele ficou surpreso ao descobrir os resultados positivos das pesquisas sobre os potenciais benefícios dessas substâncias para a saúde.
Resultados que vem sendo ufanados como novidades “ultra mega revolucionárias” no campo científico. Que estão abrindo uma nova fronteira de investigações sobre a mente.
Mas para quem já faz uso de alguma dessas substância há tempos, o que a ciência conseguiu mostrar até agora não parece ser nada além do óbvio.
Efeitos positivos no tratamento de depressão, ansiedade, stress, superação de vícios e outros distúrbios envolvendo saúde mental?
Existem milhares de pessoas espalhadas pelo mundo – usuárias de plantas enteogênicas em contextos cerimoniais – que são testemunhas vivas disso!
Estudos clínicos feitos em condições controladas no contexto hospitalar e laboratorial, com pacientes que nunca tiveram contato com as substâncias e envolvendo grupos controles, são o modus operandi convencional da pesquisa médica.
Além de extremamente caros, são experimentos possíveis de serem realizados apenas com um número reduzido de participantes.
Sem negar a importância de estudos com essas características, será que não se poderia trabalhar conjuntamente com outras ferramentas de pesquisa igualmente válidas cientificamente?
Mas que permitam aos pesquisadores dialogar com os conhecimentos tradicionais de povos originários e de tradições religiosas quase centenárias que tem larga experiência no uso de algumas dessas substâncias. E que conhecem como ninguém os seus efeitos e potenciais benefícios (como a Igreja Nativa Americana, nos EUA, e o Santo Daime e a União do Vegetal, no Brasil).
Nessa direção, a ciência nacional parece ser bem mais criativa que a norte americana, como mostra o livro Psiconautas: viagens com a ciência psicodélica brasileira, de Marcelo Leite (2021).
E as diversas obras sobre o tema da antropóloga e coordenadora do Instituto Chacruna, Beatriz Caiuby Labate, só para citar alguns dos muitos autores proeminentes.
Parece que nas terras brasileiras os cientistas são mais propensos a serem também usuários recorrentes das substâncias que investigam.
E, talvez por isso, mais ousados nas suas estratégias de investigação...
Uma ousadia não desmedida, como parece ter sido o caso de alguns pesquisadores dos anos de florescimento do movimento de contracultura.
Mas a ousadia necessária para romper com as barreiras do pensamento positivista, cartesiano e reducionista da ciência convencional.
Pois parafraseando a proclamação de Hamlet na obra Shakespeariana, “há mais coisas entre o Céu e a Terra do que julgam alguns dos nossos caros cientistas”.
E se as coisas do Céu não podem ser validadas pelos métodos científicos limitados das ciências da Terra, elas tampouco deveriam ser desconsideradas na equação.
Assim, termino esse texto desejando que as substâncias psicodélicas - que ampliam as nossas percepções para compreender o todo - possam abençoar aqueles que se aventuram a investigar e produzir novos conhecimentos científicos sobre o assunto, em todos os campos.
E que aqueles que fazem uso tradicional e cerimonial das plantas enteogênicas também possam se abrir para ajustar suas práticas a partir de embasamento nos conhecimentos gerados pela ciência.
Pois há muito campo para melhorias, de ambos os lados!
É necessário deixar de construir muros e fazer mais pontes!
Pois acredito que apenas se o conhecimento científico e os saberes tradicionais puderem dar as mãos, conseguiremos “tirar o atraso” dos anos de estigmatização do uso dessas substâncias.
E ir mais longe na implementação de ferramentas que auxiliem na tão necessária transformação de consciência da sociedade planetária.
Evitando os equívocos do passado e construindo juntos um novo futuro!
Por Érika Fernandes Pinto, 31/07/2022.
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