COMO MUDAR SUA MENTE? REFLEXÕES PROVOCATIVAS SOBRE A SÉRIE DO NETFLIX QUE AINDA VAI DAR O QUE FALAR (Parte 1)
Assisti recentemente a série Como mudar sua mente, uma produção da Netflix lançada em 12 de julho de 2022. Baseada no livro homônimo de Michael Pollan, ela aborda a história, os avanços e as tendência da pesquisa científica sobre psicodélicos.
Não é intenção desse texto fazer uma resenha ou um resumo sobre o que a série aborda. Vou apenas destacar o que eu achei mais interessante e compartilhar algumas reflexões pessoais “provocativas” sobre o tema, inspiradas na obra.
Se você ainda não assistiu série, recomendo que assista primeiro.
Pois aviso que o texto traz spoilers...
O carisma de Pollan e dos participantes da história
Como pesquisadora de plantas sagradas e enteogênicas, eu já tinha contato com Pollan a partir dos seus escritos, como o livro que embasa a série. Então conhecia boa parte das informações compartilhadas nos capítulos e a sua "pegada" na abordagem do tema.
Gosto do seu estilo desde que li pela primeira vez O Dilema do Onívoro, um livro de sua autoria que também recomendo.
Mas foi muito legal de vê-lo pela primeira vez atuando na tela da TV.
Pollan é um sinhozinho careca, de óculo, sorriso largo e fala compassiva que, ao aliar informação e simpatia, torna o assunto ainda mais interessante.
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| Michael Pollan |
Na série, relatos da sua própria experimentação com os psicodélicos são entremeados com entrevistas com cientistas eminentes do campo.
E também depoimentos cativantes de pacientes que fizeram parte de estudos clínicos com as substâncias, testemunhando seus resultados e benefícios.
Confesso que alguns deles fizeram meus olhos se encher de lágrimas...
Outros, a agradecer pelas mazelas que enfrentei na vida terem sido "tãaaao lights" quando comparadas com o que outras pessoas enfrentaram.
Afinal, nada como uma mudança de referencial para começar a achar os nossos maiores problemas meio insignificantes!
Além de pesquisadores atuais no campo médico, a série apresenta personagens ilustres que fizeram parte da história da descoberta, experimentação e propagação do uso do LSD e da psilocibina nas décadas de 1950 e 1960.
Cenas reais envolvendo pessoas que eu conhecia apenas por fotos e pelo renome.
Como Alfred Hofmann, o chamado "pai do LSD", que testou e descobriu em si mesmo os efeitos da substância descoberta "ao acaso" enquanto testava derivados de um fungo do esporão do centeio.
Ou Timothy Leary, o pesquisador que tirou os psicodélicos dos laboratórios de Harvard e o propagou no mundo da contracultura americana. Mesclando - segundo alguns - ou confundindo - segundo outros - o seu papel de cientista com ativista.
E o que dizer da seriedade de Aldols Huxley - que escreveu As Portas da Percepção, um dos maiores clássicos da literatura visionária - ao defender restrições no uso das substâncias que o inspiraram?
Ou da tristeza da curandeira mexicana Maria Sabina, tida como "a pessoa que apresentou os cogumelos mágicos ao mundo"? Uma história no mínimo incômoda para quem, como eu, trabalha com a defesa dos direitos de povos indígenas e comunidades tradicionais.
Adorei também ser apresentada aos Huicholes - guardiões do Peiote e de muitas sabedorias ancestrais. Algusn deles eram velhos conhecidos da minha querida amiga Silvana Meira, que passou uma temporada naquelas bandas e com quem debati esse texto antes de publicá-lo aqui no blog.
Isso para citar apenas alguns dos personagens instigantes que aparecem na série.
Além disso, o documentário conseguiu tirar “do fundo do baú” cenas significativas da história psicodélica, que não estavam disponíveis por aí.
Como a parte que mostra o contexto dos experimentos antigos da CIA com o LSD, interessados nas possibilidades de utilizá-lo em interrogatórios e no controle da mente dos inimigos.
Algo abordado brevemente na série e explorado com mais detalhes no livro, mas que ficou bem divertido de assistir na TV.
Explicando o inexplicável
Gostei das didáticas animações esquemáticas e cenas recheadas de efeitos especiais que retratam o impacto das substâncias psicodélicas na mente humana e que ajudam a “explicar o inexplicável”.
Algo salutar para quem faz uso da Ayahuasca e sabe muito bem o quão limitado é tentar compartilhar experiências com quem não conhece seus efeitos utilizando apenas palavras.
Achei interessante também o conteúdo de fundo sobre as diferentes terminologias que já foram (e em alguns contextos ainda são) empregadas para qualificar - ou desqualificar - as substâncias psicoativas.
Desde termos como drogas psicoticomiméticas (que significa “imitar sintomas típicos de psicoses”), substâncias piscodisleptivas ou alucinógenas, até psicodélicos (do grego psico = mente, deos = expansão), substâncias visionárias e enteógenos (do grego entheos = deus dentro).
Esse último termo, que é o que eu adoto, ganhou expressão principalmente a partir da década de 1990. É considerado mais adequado por enfatizar aspectos culturais e simbólicos da experiência, evitando um reducionismo farmacológico que desconsidera o seu caráter fenomenológico.
Algo que, na minha opinião, a série deixa um pouco a desejar...
Mas antes de partir para essa abordagem, tem mais alguns pontos que eu gostaria de destacar como highlights da produção.
Como a contextualização do processo que levou à proibição do uso das substâncias psicodélicas a partir da década de 1970.
Drogas do mal?
Desde a descoberta do LSD e da psicilocibina que as substâncias psicodélicas começaram a ser estudadas pela ciência médica.
A série mostra que pesquisas nesse campo foram profícuas nas décadas de 1950 e 1960, principalmente nos EUA e alguns países da Europa.
E indicavam bons resultados sobre o seu potencial terapêutico.
Só que então elas saíram das paredes dos laboratórios de pesquisa e dos muros dos hospitais para cair no mundo. Se propagaram rapidamente em meio à emergência da revolução da contracultura e do movimento hippie.
Um processo que, como não poderia deixar de ser, começou a desagradar os setores conservadores da sociedade e, particularmente, o governo americano.
Estávamos na época da Guerra do Vietnã. E pela primeira vez na história parte dos jovens da super patriótica sociedade estadunidense começaram a se negar a lutar pelo seu país. Atravessar os mares para ir matar outras pessoas e, eventualmente, também morrer, começou a gerar questionamentos, sobre a guerra e sua motivações.
Essa rebeldia calcada em "ideais perigosos" de liberdade, paz e amor foi prontamente associada a “efeitos do uso de psicodélicos”, que passaram a ser considerados como drogas do mal.
Foi nesse contexto que o uso dessas substâncias foi proibido. Uma decisão do Governo Nixon nos EUA, que as incluiu na mesma categoria dos narcóticos e entorpecentes Classe I, os mais perigosos.
Mas a ação envolveu mais do que isso...
Contradizendo as pesquisas existente até então, os psicodélicos foram classificados como substâncias sem finalidade terapêutica, suspendendo-se todo e qualquer tipo de estudo científico com essas substâncias.
Conseguem imaginar isso?
Proibir cientistas de fazer pesquisas e experimentos testando propriedades de plantas e efeitos de substâncias naturais?
Pois foi desse jeito...
O pior é que essa interpretação rapidamente se espalhou por todo o mundo, chegando inclusive no Brasil, o que é assunto para uma outra história...
Inimigo número um
A série mostra como esse processo de criminalização dos psicodélicos foi acompanhado por uma campanha publicitária agressiva.
Que além de abordar essas substâncias como "drogas do mal", as qualificava como o maior inimigo interno do povo americano.
Campanhas que se espalharam dos EUA para o mundo, potencializando a estigmatização social das substâncias psicodélicas.
Algo que se perpetua até os dias atuais!
Mesmo já conhecendo esse histórico, foi chocante para mim ver os registros de campanhas que fizeram parte da gigantesca repressão associada ao processo.
Com cenas medonhas que comparavam o cérebro sob efeito dos psicodélicos a um ovo sendo frito.
Ou que equiparavam a experiência de fazer uso de LSD com uma "brincadeira de roleta russa”, com os participantes apontando uma arma para a cabeça.
Ou que mostravam pessoas se contorcendo no chão, chorando, gritando e enlouquecendo. Além de gente pulando de prédios e se suicidando, supostamente induzidas por efeitos de psicodélicos que as faziam achar que poderiam voar...
E até imagens grotescamente mal editadas de fetos humanos disformes que seriam gerados nas mães usuárias dessas substâncias.
Entre outros exemplos do mesmo naipe, essa campanha massiva contra "a ameaça número 1 aos jovens americanos" fez com que o uso de substâncias psicodélicas permanecesse estigmatizando na sociedade em geral pelas cinco décadas subsequentes.
Uma realidade, infelizmente, ainda atual!
E é nessa direção, a meu ver, que se encontra a principal contribuição da série Como mudar sua mente – ajudar a des-estigmatizar os psicodélicos aos olhos do grande público.
De vilões a aliados
Abordando o renascimento das pesquisas com psicodélicos nos anos 2000, os capítulos da série mostram resultados de estudos científicos realizados por renomados cientistas em grandes centros mundiais.
Experimentos que atestam a relevância de algumas substâncias psicodélicas no tratamento de problemas de saúde mental.
E o caráter integrador das experiências, retratado nos depoimentos de pacientes que enfrentavam quadros de ansiedade, depressão, adicções, doenças em estágio terminal, transtorno obsessivo compulsivo (TOC) e transtorno de stress pós-traumático (TSPT).
Nesse sentido, é interessante destacar o que considero um dos maiores paradoxos da proibição dos estudos sobre psicodélicos.
As pesquisas atuais mostram que justamente essas substâncias, banidas durante o contexto de guerra, parecem ser as únicas capazes de amenizar as consequências psicológicas e emocionais que impactam negativamente aqueles que dela participaram!
(Sobre esse assunto, ver particularmente episódio 3 sobre efeitos do MDMA no tratamento de Transtorno de Stress Pós-Traumático).
Um caminho de conexão espiritual e expansão da criatividade
Também chama a atenção na série o relato dos efeitos dos psicodélicos em proporcionar experiências espirituais. Ainda que pese, na minha opinião, o fato das pesquisas médicas tirarem as substâncias psicodélicas do seu contexto ritualístico, especialmente aquelas originadas de conhecimentos dos povos nativos.
Achei engraçada a abordagem de Pollan sobre as estratégias dos cientistas em tentar explorar essa "dimensão mística" das experiências. Por exemplo, usando um questionário que tenta medir aspectos altamente subjetivos como “sentir-se parte do todo" ou "ligado a algo muito maior”.
Gostei também da abordagem, ainda que breve, dos benefícios dessas substâncias não só para o tratamento de males psicológicos e psiquiátricos, mas também para o aumento da criatividade e da capacidade de resolução de problemas intelectuais.
Pois acredito - e testemunho em mim - que, além de potencializar processos de cura mental, física e espiritual, os psicodélicos também podem ser fantásticos portais de conhecimento!
Esse me parece ser um diferencial dessa série, na minha opinião, com relação a outros documentários sobre o tema, como aqueles existente no próprio Netflix que abordam o uso da Ayahuasca (como Goop Las e A Indústria da Cura).
Esses últimos fazem parecer que apenas quem tem problemas muito sérios e está completamente sem esperança de vida chegaria ao ponto "desesperador" de lançar mão desses recursos.
Descriminalizar a natureza
Gostei também da abordagem, no capítulo 4, do movimento popular que desencadeou a campanha Decrim Nature. E que explica a diferença entre legalizar o uso de determinadas substâncias X não criminalizar o cultivo doméstico e o uso caseiro de plantas psicoativas.
Uma proposta que me parece muito mais interessante e pertinente de ser aplicada no contexto brasileiro.
Mas achei um pouco problemática a exigência dos nativos indígenas norte americanos de exclusão do peiote dessa lista.
Os depoimentos indicam que essa foi uma estratégia para buscar garantir a proteção da espécie - que tem uma área ocorrência natural restrita - da coleta e eventual extinção por parte de um uso desregrado dos não indígenas.
Ainda que a história mostre o quão pertinente e legítima é essa preocupação, como especialista em gestão de áreas protegidas, penso que talvez a luta pela proteção efetiva dos territórios e o seu uso exclusivo por parte dos guardiões tradicionais poderia trazer resultados mais expressivos.
Um assunto polêmico que também dá "pano pra manga"...
Enfim, para além desses destaques positivos da série, tem mais alguns alguns aspectos da trama me instigaram reflexões mais provocativas, contempladas na Parte 2 desse texto.
Bora continuar essa conversa?
(Acesse a continuação desse AQUI)
E, se por acaso você estiver lendo até aqui e ainda tiver assistido a série Como Mudar sua Mente, corre pra assistir, pois o convite é para refletir junto!
E não esquece de deixar seus comentários sobre o que achou até aqui!!!
Por Érika Fernandes Pinto, 30/07/2022.



