13 DE MAIO - SALVE AS OVELHAS NEGRAS

Para algumas pessoas, o dia 13 de maio pode parecer apenas mais uma data qualquer no calendário. 

Mas para uma parcela significativa da população brasileira, ele convida a uma reflexão que continua sendo profundamente necessária sobre a história da escravidão e a perpetuação de padrões de racismo estrutural no Brasil.

Há muitos anos eu convivo com povos indígenas, populações tradicionais, comunidades quilombolas e de terreiro. 
Acompanho suas lutas, escuto suas histórias e caminho ao lado de algumas de suas causas.

Ainda assim, essa data nunca teve tanto significado para mim quanto neste ano, quando as injustiças contra as quais luto no âmbito do meu trabalho atravessaram as portas da minha casa.

Fui testemunha de uma situação familiar em que meu filho — um jovem branco, de 24 anos, de classe média, sentado em um restaurante (um ambiente completamente seguro), almoçando com a família — comentou admirar as ideias de um deputado negro de Curitiba que defende pautas humanitárias.

A reação foi imediata. 

Surpreendente. 

Violenta e desproporcional.

Além da hostilidade evidente que aflorou contra a pessoa em questão, meu filho também foi constrangido moralmente com xingamentos e até insinuação de agressão física. 
Além disso, todos os presentes puderam ouvir as palavras carregadas de injúria racial, intolerância religiosa e desumanização.

Essa não foi a primeira vez que algo assim lhe aconteceu e ele já precisou literalmente sair correndo para se proteger, não de pessoas estranhas, mas da própria família.

Homens cultos, com alto grau de escolaridade, bem posicionados econômica e socialmente, que são pais e avós, se dizem cristãos e que afirmam, sem hesitar, que na casa deles “não existe essa coisa de racismo, não somos assim.”

Mas há algo profundamente errado quando o simples fato de mencionar o nome de uma pessoa negra desperta tamanha fúria. 
É de se imaginar (sem justificar) que, no mínimo, ela tenha cometido alguma atrocidade muuuuito grave...

Eu, que pouco sabia sobre o tal deputado até então, me pus a pesquisar. Desse estudo, entre outras coisas, nasceu um texto sobre um lugar sagrado em Curitiba - a Igreja Rosário dos Pretos -, que pretendo em breve publicar. 

Nasceu também uma admiração profunda pela trajetória e pelas lutas empreendidas por Renato Freitas, esse jovem que assume um papel importantíssimo ao se colocar dentro de uma das estruturas mais racistas e conservadoras do Brasil, ousando expor suas contradições e hipocrisias - e enfrentando tantas retaliações.  

Mas voltando à ocorrência familiar, o mais perturbador, pra mim, foi que depois da explosão pública de raiva gratuita em face à pacífica manifestação do meu filho de uma opinião ideológica absolutamente legítima, cada um dos presentes se levantou da mesa e seguiu seu dia como se nada tivesse acontecido.

Porque para as pessoas da minha família aquilo era, afinal, normal...

Apenas eu fiquei lá mais um tempo, sozinha e estarrecida, sem conseguir empurrar o desconforto para baixo do tapete.

Depois de ter estudado um tanto sobre decolonialidade e me aberto para um letramento étnico-racial, compreendo que é por causa de situações exatamente assim que o racismo estrutural se perpetua na nossa sociedade.

Pela normalização desse tipo de situação no seio das famílias. 

Entre manifestações descabidas de ódio e a desumanização de pessoas que pensam diferente, há o silêncio e a recusa em enxergar e nomear esses padrões - vários deles, é importante destacar, tipificados na legislação como crime.

Se um jovem como meu filho - branco e envolto em diversos privilégios sociais - passa por isso apenas por expressar simpatia por uma liderança negra, quem consegue imaginar o que pessoas negras enfrentam cotidianamente ao lutarem por uma vida melhor? 

Em meio a uma cidade ultraconservadora e cheia de casas onde se diz que “não existe racismo”, o jovem deputado negro em questão teve ontem o seu mandato na Assembleia Legislativa do Paraná cassado. 

Foi acusado de quebra de decoro parlamentar por reagir a uma tentativa de agressão nas ruas de Curitiba, evidenciando o pensamento que dita que alguns "tem o direito de xingar e bater", enquanto outros "só podem apanhar", sequer se defender.
 
Essas situações revelam uma das reflexões mais importantes neste dia 13 de maio, data da assinatura da Lei Áurea, em 1888, que na história oficialesca marca a abolição da escravatura no Brasil. 

Para os afrodescendentes, no entanto, a história é outra. O ato da Princesa Isabel - que não veio acompanhado de nenhuma estratégia de inclusão social - relegou uma parcela enorme da população à miséria e à exclusão, impossibilitando o acesso dos negros "libertos" à educação, saúde, terra e meios de produção. 

Os efeitos disso perduram até os dias atuais, inegavelmente mostrados em todas as estatísticas sociais. 

Mas as estatísticas por vezes nos parecem distantes quando não somos nós que as vivenciamos. 
 
Nesse contexto, é importante lembrar que nem sempre o racismo aparece vestido de ódio declarado contra uma raça ou uma cor. 

Ele está entranhado nas estruturas de pensamento, nos nossos ambientes de trabalho e de convivência. 

Nas mídias sociais que, além de fake news,  propagam informações parciais e descontextualizadas, cheias de  julgamentos sobre fatos desprovidos de comprovação factual ou de análise crítica.

O preconceito aparece nos detalhes das conversas banais. 

Na relativização de direitos fundamentais. 

Na recriminação de políticas sociais que visam diminuir assimetrias sociais. 

Na atribuição de sucesso material apenas ao mérito de um esforço pessoal, desconsiderando o lugar diferenciado de privilégio de diferentes grupos sociais. 

E, particularmente, no silenciamento diante de injustiças. 

Pois se "todas as vidas importam" e "todos somos iguais", é preciso considerar que nem todas carregam uma história de séculos de violência, exclusão e desumanização.

É preciso ter coragem para reconhecer quando, dentro da nossa própria casa, a humanidade do outro está sendo negada. 

E é preciso mais coragem ainda para sentir e expressar que a nossa humanidade também está sendo ferida quando a do outro é negada - e não permanecer passivo a isso.  

Assim, nesse 13 de maio de 2026, agradeço a todas as pessoas - não importa sua cor, seu gênero ou o seu partido - que ousam se levantar para denunciar injustiças sociais e defender bandeiras que presam pela dignidade humana. 

Desejo que encontrem acolhimento, proteção e muita força para seguir existindo, resistindo e re-existindo. 
Pois são essas pessoas que nos mostram caminhos para uma nova realidade, mais consciente e inclusiva. 

Porque se queremos um mundo melhor, não basta pensar nos bens que queremos deixar para os nossos filhos. 
Precisamos refletir sobre que filhos a gente quer deixar para o nosso mundo. 

Da minha parte, rogo aos céus que, se o meu legado for apenas um, que seja (como canta Mercedes Sosa) que "a injustiça não nos seja indiferente". 

Agradeço à minha Tia Mônica Pinto (in memoriam), por ter sido para mim talvez meu único exemplo de pessoa realmente sem preconceitos, que viveu uma vida honrada onde o amor e os bons princípios foram o seu maior valor. 

E, por fim, agradeço ao meu filho - pela sua autenticidade, coragem e capacidade de lidar com essas coisas com leveza sem perder a profundidade -, pelo duplo presente (de aniversário e Dia das Mães) que essa história representou para mim. 

Pois me fez entender, depois de 50 anos - e finalmente! - o orgulho de ser... a ovelha negra da família.

Amém, Axé, Saravá


Por Érika Fernandes Pinto

Foz do Iguaçu, 13 de maio de 2026