Por Érika Fernandes Pinto*
*Texto escrito em 2014, que ganha novas cores nesse ano de 2025 quando me preparo para virar avó!
Há muito tempo que tenho vontade de escrever sobre um tema que, ainda que não faça parte da minha vida cotidiana, marcou de forma profunda diversas etapas da minha trajetória - o parto.
Aproveito a data de hoje, onde comemoramos o aniversário de 12 anos do meu filho, para relembrar e compartilhar com vocês um pouco daquela que foi a mais assustadora e incrível experiência da minha vida.
Entre a informação e a realidade
Como sou metida a pesquisadora, assim que soube que estava grávida, li diversos materiais sobre gestação e parto - assuntos que, diga-se de passagem, eu desconhecia quase completamente até aquela data.
Apesar das preocupações naturais de toda mãe de primeira viagem, rapidamente me convenci da beleza e riqueza da experiência de gestar e parir.
Depois de alguns meses, quando finalmente resolvi procurar um médico, quase me desesperei.
As leituras e depoimentos da internet me levaram a criar uma idéia de parto natural que parecia não caber no serviço médico e hospitalar convencional.
Naquela época e, na cidade de Curitiba, ainda não se ouvia falar de doulas, de casas de parto...
Parto em casa era coisa de hippie, parteiras eram mulheres ignorantes do interior onde não se tinha opção e o médico era o dono da verdade sobre o que deveria ou não ser feito.
De fato, eu não tinha nenhuma amiga com filhos da minha idade que tivesse feito um parto natural.
Fiz uma longa peregrinação de consultório ginecológico em consultório, seguindo recomendações de "este é bom", para encontrar sempre a mesma situação - cesariana sendo livremente oferecida como uma opção mais prática, com menos riscos para a mulher e o bebê e com menos conseqüências "desagradáveis" para o corpo feminino.
Rebelde por natureza e herança (essa foi pra você, viu pai!), me recusava a ser atendida por um médico que dissesse que eu podia escolher entre as "opções de parto" que incluíam cesariana - e saía bradando do consultório que "cesariana era uma intervenção cirúrgica para emergências, e não um tipo de parto".
No sistema público de saúde em Curitiba, vigorava na época um tal de "parto sem dor", com aplicação de anestesia peridural.
Depois de estudar um pouquinho sobre o assunto, traduzi o procedimento como "um jeito de fazer a mãe sofrer até quase o nenê nascer, privá-la da experiência de concluir o trabalho e de ter que arrancar o bebê da barriga puxando-o com um ferro pela cabeça" (as estatística da necessidade de uso de fórceps no parto com anestesia eram enormes).
Com este cenário na minha cabeça, esta também não era uma opção válida e, com 8 meses de gravidez, eu ainda não tinha encontrado um médico de confiança nem sabia onde parir.
O médico humanizado na teoria
Bom, para encurtar a conversa, minha mãe ficou sabendo de professor na Universidade que ministrava uma disciplina sobre parto humanizado e que era médico e pensamos "este deve ser diferente".
Na consulta logo ficou claro que a questão do parto humanizado era para ele uma abordagem mais teórica do que prática (quando perguntei quantos partos humanizados ele já tinha feito, deu uma resposta evasiva do tipo "minhas pacientes quase não procuram por este tipo de abordagem").
Apesar disso, ele concordou com a minha longa lista de exigências para parir "do jeito natural" e, um pouco por por sua simpatia e atenciosidade, um pouco por falta de opção (e muito pelo tamanho da minha barriga), ele acabou se tornando o "meu médico" oficial.
Eu tinha pavor de hospital, mas não encontramos em Curitiba nenhuma outra opção. Até existiam algumas clínicas, mas não estavam acessíveis ao meu círculo familiar e de amizades - uma vez que na época fui tachada por amigos e parentes praticamente de maluca, por querer fazer um parto natural - doloroso e arriscado, ao invés de "usufruir dos benefícios da modernidade".
Escolhi então uma maternidade que me pareceu ser "a menos pior" e lá fui fazer o tal "curso para gestantes". Mais de 20 barrigudas, e eu era a única que dizia que queria fazer um parto natural - frase sempre seguida de manifestações de "OHHHH", perguntas de "Mais porque?" e olhares de "que louca".
Minha longa lista de argumentos em favor do parto natural não tinham espaço nem contexto para serem explanadas e, com a rebeldia já um pouco anestesiada pelas condições de final de gravidez, me abstive de tentar trazer estas coisas para discussão.
Mas, no silêncio da minha mente, ressoava para mim mesma - ainda quero fazer alguma coisa com relação a isso...
Confesso que a falta de experiência (afinal, ainda não tinha parido) e de referenciais (nenhuma das minhas amigas que tinham filhos tinha parido), às vezes geravam um medozinho interno - "E se alguma coisa der errado? Vou me sentir culpada para o resto da vida!".
Aí tentava negociar com Deus de que se fosse para alguma coisa dar errado, que fosse comigo, e não com o bebê.
À propósito, eu também não quis saber o sexo do neném enquanto ele estava na barriga, o que também contribuiu para o rótulo de "maluca". "Como é que vai fazer o enxoval do neném? Como vai escolher o nome?"
Só abrindo um parênteses para concluir este assunto, sempre achei que ter um bebê não demandava toda aquela parafernália que os pais costumam carregar para cima e para baixo.
E também que "rosa para menina e azul para menino" era uma visão muito limitada do espectro de possibilidades das cores, além de um preconceito social danado.
E não entendia como alguém podia escolher o nome de uma criança sem ter visto a carinha dela primeiro, uma coisa tipo colocar o nome no quadro antes de fazer a pintura.
Parto de cócoras: a inovadora sabedoria ancestral
Nas semanas finais da gravidez, fiquei sabendo de um médico que era pioneiro no parto de cócoras no Brasil - em Curitiba. Já discordei da informação de cara, porque as pioneiras em parto de cócoras no Brasil são as indígenas.
Mas o médico, um velhinho chamado Dr. Paciornick, sabia disso, e foi justamente trabalhando com grupos indígenas que ele começou a despertar para os benefícios desta posição de parir e a estudar para levar esta prática às mulheres urbanas.
Toda feliz, marquei uma consulta com ele. Logo de cara, antes de perguntar meu nome, pediu para eu agachar. "Hum, muito bom" - comentou.
Segundo ele, mais da metade das mulheres que entravam no seu consultório não conseguiam abaixar o suficiente ou sustentar a posição mais que alguns segundos, e que para estas não tinha possibilidade de propor um parto de cócoras.
Uma das muitas tristes conseqüências do nosso modo urbano e confortável de ser nas cidades...
A consulta com o Dr. Paciornik foi uma aula para a minha vida e ainda hoje sigo recomendações que ele me deu naquela época.
Mas, nada de parto...
O hospital onde ele e sua equipe trabalhavam estava fechado para reformas e a opção de contratar um médico para fazer o parto em casa, além de provavelmente causar um infarto na minha mãe, era muito cara.
Escolhendo a maternidade
Voltando para o curso de gestantes, em um belo domingo de sol fomos fazer a visita à maternidade - leia-se "ao centro cirúrgico onde dizem que se ajudam crianças a nascer".
Primeiro fomos ver a tal de sala de pré-parto, também chamada de sala de triagem - um quartinho azulejado de verde claro, iluminado com lâmpadas fluorescentes tipo luz de geladeira, com apenas algumas macas. Totalmente impessoal, asséptico e nada acolhedor.
"Ah, a gente fica aqui até a hora de parir, é?" "É". Tá, entendi porque um dos maiores motivos alegados para o alto número de cesarianas - mesmo entre mulheres que dizem querer fazer parto normal - é a "falta de dilatação"... Quem é que consegue ter dilatação em um ambiente horroroso destes?
Ainda mais sem acompanhamento de nenhuma pessoa da sua confiança (só enfermeiras podem entrar na sala). E quando você não está sozinha, está na companhia de outras mulheres gemendo (às vezes urrando) de dor.
A sala de parto, bom, era bem pior...
Pra resumir, o que mais me apavorou foi ver, ao vivo e a cores, aquele suporte onde as pernas da mulher ficam arreganhadas e... amarradas!!!!
Quase chorei de desespero, querendo fugir correndo e parir no mato.
Mas liguei para o "meu médico" ao fim da visita e ele me acalmou, dizendo que podia propor algumas alternativas.
Quando pensei que o pesadelo estava acabando, fomos ver a sala onde o bebê recebe os "primeiros cuidados médicos" após o nascimento.
Primeiro enfiam uns caninhos no nariz e na garganta do pequenininho para aspirar qualquer líquido ou muco. Depois colocam ele em uma máquina no formato de uma caixa de sapatos que parece um forninho elétrico para aquecer.
Na concepção do parto natural, não se deve fazer nada disso. O bebê nasce e vai direto para o colo da mãe, é aquecido pelo calor do peito dela, onde recebe rapidamente a primeira mamada. O movimento de sucção, que é inato em todos os mamíferos, é que vai limpar os dutos respiratórios da criança.
Além de contribuir para estabelecer o vínculo mãe-bebê, a primeira mamada logo depois do nascimento alimenta a criança com o mais precioso dos néctares que um ser humano é capaz de produzir - o colostro.
Também para a mãe são inúmeros os benefícios - ajuda a mulher a expelir a placenta e a controlar o risco de hemorragia.
"Negociando" um parto
Minha última consulta com o ginecologista demorou 3 horas. Falamos pormenorizadamente de cada um dos procedimentos do parto, negociando o que "eu não queria" de jeito nenhum, o que "podia ser" em caso de extrema necessidade e o que ele considerava que era mesmo pertinente.
Raspagem de pelos pubianos? Não, totalmente desnecessário e muito desconfortável quando os pêlos voltam a crescer! Lavagem intestinal? De jeito nenhum, a não ser que tenha comido uma feijoada no dia. Soro e hormônio injetável para acelerar contrações? Deixa a natureza seguir o ritmo dela...
E mais: posição deitada na cama? Depois da minha aula-consulta com o Dr. Paciornick, eu não podia conceber a idéia de parir deitada. "Como é que o neném vai sair pra cima?" - eu perguntei.
"Não posso deixar você ficar em pé nem agachada no chão do hospital..." - o médico respondeu. Este foi o ponto mais polêmico da nossa negociação. Terminamos com um meio termo, com a proposta de usar uma daquelas camas que erguem a cabeceira para deixá-la em posição inclinada e sem amarrar minhas pernas no estribo. Não fiquei muito satisfeita, mas foi o possível.
E a tal da anestesia? "Ai que medo". É lógico que eu não queria a tal da anestesia peridural, mas como não conhecia as dores do parto, a gente fica com um pouco de receio. "Vai que o negócio é enlouquecedor e eu não agüento..." "Não, não e não, vou ser forte". "Mas se eu começar a chutar as enfermeiras de tanta dor, o senhor avalia".
E, por último, os procedimentos com o bebê... "Nasceu, dá ele pra mim! Nada de levar o neném embora pra enfiar caninhos no nariz dele e colocar no forninho..." "Quero fazer a primeira mamada logo depois do parto, tá?" "Bom, isso aí é com o pediatra, eu só sou responsável por você". "Como assim????"
Pois, é, depois de cortar o cordão umbilical da criança quem cuida dela é outro médico, um pediatra - ele explicou. "Pediatra, que pediatra, ninguém me falou de pediatra?". Depois da saga que tinha sido encontrar um ginecologista para fazer o parto, a necessidade de achar um pediatra em poucos dias quase aflorou novamente uma crise de pânico... "Calma, eu conheço um que vai te agradar..." Ufa!
Queria fazer o médico assinar algum tipo de documento garantindo que ele iria cumprir direitinho o que combinamos... Mas ele, com sua paciência sem fim e sorriso amável, depois de 3 horas de consulta, me convenceu de que não era necessário.
Saí do consultório, dei alguns passos e voltei para dentro correndo... "E as enfermeiras? Eu combinei tudo isso com o senhor, mas sei que o protocolo do hospital é diferente, como ficam as enfermeiras? "Eu cuido delas. Vai para casa".
Quando chega a hora... não espera ninguém
Depois desta última consulta, a semana transcorreu tranquilamente. Tive uma gravidez maravilhosa, me sentindo ótima e linda até o final. Fui passar uns dias na praia, caminhando na areia e tomando banho de mar e já começava a sentir saudades do barrigão...
Ainda faltava uma semana para a data prevista para o parto. Mas quando a gente não intervém, os bebês seguem o fluxo da natureza, e não o do calendário.
A lua cheia de uma linda noite de sábado surgiu no céu junto com as minhas primeiras contrações.
No começo, eram sutis, tipo uma colicazinha. Fui até dormir sem desconfiar que já eram o prenúncio do processo de parto.
Acordei as 3 da madruga com dores mais intensas.
Tinha lido em um livro sobre gestação que muitas mulheres passam por uma situação nas semanas anteriores ao parto em que surgem "falsas contrações".
"Como é que uma contração pode ser falsa se dói pra caramba?" "Pega o livro". Lemos então que se deve medir o intervalo entre uma contração e as seguintes - e for regular, provavelmente é o trabalho de parto em ação. Se for irregular, vai ficar assim um tempo e depois passa.
As minhas estavam regulares, de 5 em 5 minutos quase cravado.
Arrumamos então as coisas rapidamente e partimos rumo à Curitiba.
Às 3 e meia da manhã, a estrada estava vazia e a viagem, iluminada pela lua cheia e uma música suave do Toquinho no rádio, foi bem agradável.
Chegamos em casa e fui tomar um banho. Ai que delícia aquela água quentinha nas costas... alivia tanto as contrações que a gente até esquece...
Dali a pouco senti uma coisa escorrendo pelas minhas pernas - sangue. "Sangue? Que raio de sangue é esse? Não era água que tinha que sair?" Lê no livro, liga pro médico, chama a minha mãe, corre pro hospital... Quando saímos de casa, o intervalo entre as contrações estava por volta de 3 minutos.
No hospital: entre a resistência e a entrega
Saindo do carro em frente ao hospital, o negócio já estava no ritmo de "um passo, uma contração".
Alguém do hospital chegou trazendo uma cadeira de rodas, mas eu, ainda cheia de coragem, disse "não precisa, eu vou andando".
O cara ficou lá parado com um sorrisinho meio sarcástico me observando enquanto eu tentava continuar caminhando, mas era "um passo, uma contração; meio passo, uma mega contração..."
Então ele falou "Moça, não é por nada não, mas se a senhora não sentar nesta cadeira agora o seu bebê vai nascer aqui na calçada".
Nada como um bom argumento para acabar com a nossa teimosia... Sentei.
"Não, eu não quero entrar na sala de pré-parto! Me leva pro quarto!" "Moça, a senhora não pode ir para o quarto agora, só depois do parto". "Então me deixa no corredor!" Moça, a senhora não pode ficar aqui no meio do corredor deste jeito". "Então espera a minha irmã chegar pra entrar comigo..."
Para ganhar tempo, fugi pro banheiro, alegando que precisava fazer cocô. Alguns minutos depois uma voz toda paciente falou "querida, sai daí um pouquinho só para eu dar uma olhadinha como é que está a sua dilatação".
Relutante, saí, negociando que ela ia medir a dilatação e eu ia voltar para o corredor...
Quando abri as pernas na sala de pré-parto a enfermeira deu um pulo assustado e começou a bradar "a cabeça já tá aqui, a cabeça já tá aqui".
Meu Deus, aí foi uma confusão.
Era um tal de enfermeira correndo de um lado para outro, uma querendo me dar injeção, outra colocar soro, outra raspar os pêlos...
E eu brigando - às vezes gritando - "eu não vou fazer nada disso", "eu combinei com o meu médico"... "CADÊ O MEU MÉDICO?!!".
Ele chegou na hora exata de evitar uma nova fuga para o banheiro ou alguma agressão física da minha parte, dando risada da cena que presenciava.
Falou para as enfermeiras saírem da sala que ele assumia dali por diante e finalmente tive um pouco de paz.
Mas, durou pouco, porque o neném já estava realmente saindo...
Na urgência, fui quase correndo para a sala de parto.
Uma força selvagem
Aí as lembranças são intensas, mas o relato impreciso.
Meio sentada na cama semi inclinada, com as pernas no estribo (mas não amarradas!), de olhos fechados e com uma puta dor, não sei contar direito o que aconteceu.
Eu não tinha absolutamente nenhum controle sobre o que estava fazendo ou deixando de fazer.
Uma força descomunal invadiu e tomou conta de todo o meu ser.
Nunca havia passado por nada nem longe de ser parecido.
A força do universo inteira se manifestava dentro de mim.
Experimentei uma imensa sensação de estar VIVA, com toda a plenitude que este termo representa, de forma selvagem e primitiva.
Tá, tenho que confessar que para o expectador externo o cenário talvez não fosse tão bucólico, porque isso tudo aconteceu acompanhado do som altos de "urros de onça", que segundo a minha irmã podiam ser ouvidos até no outro andar...
Então alguém segurou minha mão - era o pai do meu filho, que chegou todo destrambelhado com a touca para os pés enfiada na cabeça.
Outro alguém (uma mulher de voz doce e suave) apertou a minha barriga e começou a falar perto do meu ouvido mandando que eu seguisse o ritmo da sua contagem para respiração.
Na hora da contração mais forte o médico falava para fazer força... uma, duas, três, quatro vezes...
E então foi como se um tijolo (daqueles bem grandes, de 8 furos) saísse de dentro de mim...
E, como por encanto, toda a dor desapareceu.
Minha tia Mônica, que pariu de parto natural 3 filhas, foi uma das poucas pessoas com quem pude conversar sobre estes assuntos durante a minha gravidez.
Ela me disse o seguinte: "Olha, dói pra cacete, você passa um tempão jurando que nunca mais vai passar por isso de novo e se maldizendo por não ter concordado com a tal da anestesia". "Mas quando acaba, Nossa Senhora chega, passa a mão na nossa cabeça, e a gente esquece de tudo. Graças a ela pari três vezes".
Abri os olhos ao ouvir o Renato (o pai) dizer "É um menino-homem!".
E vislumbrei diretamente aquela coisinha, que segundos antes parecia imensa, tão linda, toda roxinha e gosmenta entre as enormes mãos do médico.
"Me dá ele, me dá!!!" Agarrei e puxei para o meu peito aquele serzinho - que inacreditavelmente tinha saído de dentro de mim - com um sentimento de amor tão desconhecido quanto avassalador.
E, como não poderia deixar de ser, chorei...
Quase tanto quanto choro agora ao escrever estas linhas...
Não deixa o neném ir pro forninho
Aí, surpresa!!! Na correria, nem lembrei de ligar para o tal do pediatra e chegou uma mulher (a pediatra de plantão) pra levar o neném para os procedimentos médicos.
"Não dou, não dou, não dou..." "Então eu vou roubar..." Naquela posição no mínimo pitoresca (ainda com as pernas arreganhadas no estribo) e voltando a sentir a dor das contrações porque a placenta começava a sair, não tive como resistir. "Renato, vai atrás dela, não deixa ela colocar nosso filhotinho no forninho!!!!"
Enquanto o médico terminava o serviço nas minhas partes baixa, eu gritava para o Renato (e para o resto do hospital) "Traz ele aqui agora, senão eu vou levantar do jeito que estou e vou aí buscar".
A médica ficou indignada com o meu comportamento, mas manteve a classe (ela, não eu). Terminou o que o "protocolo" hospitalar mandava fazer e entregou o neném para o Renato com o comentário de que a gente estava questionando "o que a medicina demorou cem anos para desenvolver".
Pois é, cem anos de sacrifícios para mães e filhos para instituir procedimentos desumanizados que hoje a própria medicina começa (graças a Deus e algumas mulheres sensatas), a passos ainda muito lentos, rever...
Eu fui a única mulher a fazer um parto natural durante a minha estada naquele hospital, entre quase 50 que aconteceram no período.
Dividindo o quarto comigo no pós-parto estava uma jovem que tinha feito o tal do "parto sem dor" (com anestesia peridural).
Enquanto eu passei dois dias cumprindo a penitência de não poder ir para casa (o ginecologista me liberou, mas a pediatra do plantão não - ela "tinha que seguir o protocolo"), me sentindo alegre, faceira e cheia de energia, recebendo visitas, tagarelando sem parar e curtindo o nenezinho, minha colega de quarto só gemia e chorava, incapaz de se levantar e de cuidar do seu filho.
Pois é, o parto pode ter sido sem dor, mas o pós-parto...
Pelo direito de parir
Bom, a história, é claro, não termina aqui. Tem a primeira mamada, a ida para casa e tantas outras coisas mais que permearam esta grande aventura do nascimento de um filho. Mas fica pra uma próxima oportunidade.
Ressalto aqui que este texto é um relato da minha experiência e opiniões pessoais.
Não quero afirmar que não existam profissionais e centros médicos diferentes, nem fazer críticas às pessoas que me atenderam, todas muito atenciosas e, dentro dos seus paradigmas, muito competentes.
Graças à Deus e a corajosas mulheres militantes, hoje acompanho à uma certa distância algumas mudanças na realidade, feliz de saber que existem outras opções disponíveis e de que mais e mais mulheres estão buscando alternativas para um parto próximo daquilo que seria o natural.
Mas também fico estupefata com alguns movimentos contrários às práticas humanitárias que surgem e ressurgem de tempos em tempos, como proibições de partos em casa e da assistência por parteiras.
O cenário da maternidade no mundo ainda é desolador, principalmente no Brasil, que ostenta o título de campeão mundial em cesarianas.
Mas o "movimento de humanização do parto" (termo que seria ridículo, se não fosse trágico), cresce e ganha adeptos a cada dia.
Dois lindos exemplos disso são as minhas queridas irmãs que depois de experiências de cesarianas, decidiram e batalharam para fazer um parto normal - a Ruth, enfrentando mais de 24 horas de trabalho de parto e a Juliana, desafiando a classe médica ao fazer um parto normal depois de duas cesarianas.
Outras guerreiras exemplares do meu círculo são as amigas Juliana Fukuda (que me concedeu o enorme presente de acompanhar o parto de seu filho, feito em casa) e a minha vizinha Bárbara (que está no finalzinho da gravidez e que se prepara para parir no nosso terreiro).
Todas mulheres de fibra e coragem a quem admiro profundamente e incentivo a também escreverem e compartilharem conosco suas experiências.
Para quem quiser saber mais sobre estes assuntos, recomendo o documentário "O Renascimento do parto", produção brasileira de 2013 que, entre inúmeros aspectos positivos, foi produzido de forma independente a partir de um movimento de arrecadação coletiva de fundos.
Um grito de guerra de uma população feminina que brada nas ruas "queremos o direito de parir".
Acima de tudo, acredito na humanidade e tenho esperança de que em um futuro próximo, o "normal" para a maternidade volte a ser a essência daquilo que Deus e a natureza nos concedeu.
E que toda mulher tenha ao menos a opção de cumprir o seu abençoado papel de "gerar a vida" e de "dar a luz".
Amém
Brasília, 31 de março de 2014.
Para meu filho, José Renato Fernandes Pinto Angelis, menino de ouro que ilumina meu coração e de todos que compartilham da sua presença.
E para minha mãe, Maria Tereza Fernandes Abrahão, exemplo de mãe e mulher, que além de me parir e criar, ainda teve coragem de fazer isso mais duas vezes...
