No começo de abril tem o tal do Dia da Mentira e muita gente brinca com ele falando inverdades para assustar ou fazer graça com os outros.
Fiquei curiosa em saber como isso surgiu.
O estudo do tema me abriu uma reflexão interessante sobre a importância da impecabilidade da palavra.
Dia da Mentira
Conta-se que até o século XVI o Ano Novo era festejado na entrada da primavera, entre o final de março e começo de abril, coincidindo com o calendário astrológico.
Envolvia um ciclo de celebrações da fertilidade da vida que durava alguns dias.
Foi com adoção do calendário gregoriano, em 1564 que o ano novo passou a ser celebrado em 1 de janeiro (mudança feita na França pelo Rei Carlos IX).
Conta-se que uma parte da população resistiu a essa mudança, mantendo os ritos de celebração do ano novo na entrada da primavera, que passaram a ser considerados “pagãos”.
Como uma forma de combatê-los e ridicularizar as celebrações, conta-se que se começou a inventar convites para festas inexistentes e que isso foi aos poucos foi instituindo o que se tem hoje como Dia da Mentira.
Mas mentira é algo muito mais complexo do que simplesmente "dizer inverdades" e a data alusiva ao tema me instigou uma investigação mais aprofundada.
Descobri uma classificação de quatro tipos de mentira: enganosa, maliciosa, benevolente e branca.
Tipos de mentira
Comecemos pela mais clássica, a mentira enganosa, que envolve tirar proveito próprio de alguma situação, por ocultação – omitindo algo relevante - ou falsificação - criando uma coisa ou uma informação não verdadeira. Essas práticas dispensam maiores comentários.
Depois tem a mentira maliciosa, que pode ser traduzida como a boa e velha fofoca, quando se busca desqualificar algo ou alguém afetando seu caráter ou sua reputação.
Ainda que pareça boba e não gere grandes repercussões quando o ente caluniado não fica sabendo do fato, recomenda-se muito cuidado com ela.
Pois no plano quântico, a energia negativa direcionada para outra pessoa não segue como uma flecha atingindo o outro.
Ela flui como um bumerangue que vai até um certo ponto e retorna para quem a lançou.
Também tem a mentira benevolente, normalmente justificada como um ato de amor, que pode aliviar o sofrimento de alguém.
Alguns exemplos extremos que retratam a ideia são quando um médico administra um placebo em um paciente na busca de lhe dar algum conforto em uma situação em que não há alternativa.
Ou a mentira dita no intuito de evitar uma injustiça, como a da alemã que escondeu a família judia de Anne Frank dos nazistas.
Só que a tal da mentira benevolente pode cair naquele ditado de que “de boas intenções o inferno está cheio”.
Uma experiência marcante para mim aconteceu na minha adolescência quando eu estava fazendo um intercâmbio na Inglaterra e um amigo morreu de acidente de moto.
Naquele tempo ainda não tinha e-mail ou celular e meus colegas ligaram para a casa da minha mãe para me avisar.
Só que ela decidiu não me contar o ocorrido "para não atrapalhar a minha viagem".
Ao descobrir o fato somente meses depois quando voltei para o Brasil, fiquei me sentindo muito mal, com uma sensação de delay por estar "chorando atrasada".
Tanto pela perda do meu colega, como porque não pude compartilhar a dor com seus familiares e amigos comuns, enviar preces e expressar minhas homenagens pela pessoa no momento da sua passagem, ainda que à distância.
Uma boa intenção, que para mim foi horrível.
Mas quantas vezes nós não mentimos ou omitimos informações pensando ter o direito de escolher pelo outro o que é melhor para ele?
Ou julgando a partir do nosso ponto de vista como outra pessoa vai se sentir e fazendo escolhas que, no fundo, não são nossas?
Por fim, tem também a mentira branca. Aquelas pequenas inverdades que aparentemente não causam mal a ninguém e frequentemente também vêm acompanhadas de intenções de agradar os outros, evitando exprimir uma opinião negativa ou omitindo alguma informação que pode magoar a pessoa.
A tal mentira branca pode ser usada para aumentar alguma história e deixá-la mais dramática ou envolvente, para super valorizar algo que a gente fez, distorcer alguma interpretação ou para "evitar encheção de saco". Mas é tudo mentira igual.
E atire a primeira pedra quem nunca caiu em algumas dessas situações...
São coisas que a gente faz consciente ou, muitas vezes, inconscientemente.
Porque de fato a gente aprende a mentir desde a infância e a adolescência...
Por um lado, isso tem a ver com instinto de autopreservação. Mente-se para evitar uma punição ou consequências por algo que possamos ter feito de “errado”.
Ou também como uma forma de proteção, quando não podemos expressar abertamente quem a gente é ou o que a gente pensa porque vai de encontro a padrões morais familiares ou do círculo social.
É interessante também perceber que, não raro, ao longo da vida podemos ser repreendidos tanto por dizer uma mentira como por dizer uma verdade.
“Não fala isso menina!”, “Você não pode pensar desse jeito”. Quem nunca ouviu alguma dessas frases?
O fato é que incorrer em inverdades acaba se tornando parte do tecido social como uma estratégia não só de manipulação, mas também para manter o bom convívio.
Só que a tal da mentira branca, que parece mais branda, é a mais ardilosa.
Porque pode até ser inofensiva para quem recebe, mas não é para quem fala.
Nossa consciência sempre sabe quando algo não é bem daquele jeito que a gente está expressando.
E isso no nível quântico e de programação cerebral (neurolinguística) afeta energeticamente a nossa credibilidade, não só para os outros, mas principalmente para nós mesmos.
Ela vai nos condicionando a não confiar na verdade daquilo que a gente está dizendo.
E isso acaba por dar um bug no nosso sistema.
Sabe aquela brincadeira de que o ouvido mais próximo da nossa boca é sempre o nosso? Ela guarda ensinamentos profundos.
Se a gente se acostuma a falar coisas e não cumprir, sejam elas grandes ou pequenas, ou a falsear informações, mesmo nos detalhes, vai programando e condicionando nosso cérebro para não acreditar na gente mesmo.
Isso é péssimo de muitas formas!
Entre elas está o fato de que nossas afirmações perdem sua força magnética.
Pois se a gente fica falando coisas ao léu, dizendo que vai fazer sei lá o que e não faz, como os seres do plano espiritual, os anjos e a nossa própria consciência vão entender a diferença de quando a gente quer realmente afirmar um propósito de vida?
Como o universo vai diferenciar qual afirmação é verdadeira e qual não?
Como um programa de computador, do ponto de vista energético não se faz distinção entre o que é para levar a sério e o que não é. Quem tem que fazer isso é a gente mesmo.
Por isso o cuidado e a atenção com a palavra são imprescindíveis para o autodesenvolvimento
Alinhando pensamento, palavra e ação
Então meus queridos, fica o convite para o desafio da impecabilidade da palavra.
A regra é simples assim - "Falou, cumpriu!
Combinou de chegar em tal hora? Chega naquela hora. Disse que a partir de segunda feira vai começar alguma coisa? Começa.
Sem dar desculpa ou usar subterfúgios que não sejam verdadeiros.
E se não for cumprir algo que falou, faz o rito de descombinar o combinado no plano físico e no astral.
Esse desafio exige um grande esforço de auto-observação e atenção aos pequenos detalhes.
É quase inevitável se flagrar incorrendo em alguma falta. Mas é para aprender com isso, e não ficar se culpando
Quando eu comecei a fazer esse exercício, inventei uma brincadeira comigo mesma. Pagaria 10 burpees (um exercício do Crossfit que costuma cansar bastante), para cada "inverdade" detectada.
Me flagrei caindo em algumas mentiras bobas (mas nem por isso não importantes).
Como dizer para alguns amigos que eu tinha que ir embora do happy hour para um compromisso de família, quando na verdade eu ia para o centro espiritual, por receio de parecer muito carola.
Ou dizendo para uma amiga que ela estava ótima com um novo corte de cabelo que na verdade achei bem esquisito, por receio de desagradar.
Algumas coisas eu consegui perceber quase na mesma hora em que falei, a tempo de me corrigir.
Outras eu só me toquei depois de um tempo ou em meio aos meus rituais espirituais, quando passo aquele “pente fino” na minha própria conduta.
E tome de pagar burpee...
Nesse processo de autovigilância, em meio a muitas risadas de mim mesma, também afloraram questões mais complexas. "Inverdades" que revelaram padrões até então ocultos e me fizeram procurar por outros tratamentos terapêuticos.
Com a prática da auto-observação, no entanto, vários ganhos foram surgindo.
Uma lâmpada vermelha começou a ser acionada na minha consciência assim que eu pensava em falar algo que não era bem daquele jeito. Então eu comecei a perceber antes de fazer.
Confesso que vez por outra ainda caio em alguma dessas armadilhas. Afinal, estou no mesmo barco que o resto da humanidade.
Mas me reconheço cada vez mais consciente das minhas palavras e atitudes.
A brincadeira dos burpees, além de me ajudar a entrar em forma (rs), também me mostrou como lidar com meus equívocos de forma mais leve. E a ser mais compassiva com os equívocos dos outros também.
Verdade benevolente
Mas atenção! A experiência também me ensinou que o compromisso com a verdade e a honestidade não são sinônimos de sincerocídio.
Tem um conceito que vem da espiritualidade oriental (a segunda norma ética do Yoga), chamado Satya ou a verdade benevolente.
Ela é entendida como a virtude que alicerça o amor e o princípio original da integridade. Nos fala que há muitas formas de expressar uma verdade e que isso não precisa se dar de forma fria ou dura.
À propósito, descobri uma frase ótima pra usar naquelas situações de "sai justa" com as amigas: “Esse não é muito o meu estilo, mas se você gostou, eu acho ótimo”.
Verdade benevolente...
Profecias autorealizáveis
É importante prestar atenção também nas coisas depreciativas que a gente às vezes afirma e reafirma sobre nós mesmos.
“Eu sou assim ou eu sou assado”, “Eu não sei fazer isso”, “Eu não consigo aprender aquilo”...
Muito cuidado com as afirmações negativas que imputamos a nós mesmos reforçando crenças limitantes e que acabam virando profecias autorealizáveis.
E tem ainda os padrões de negação, aquelas mentiras que a gente conta para a gente mesmo mantendo ilusões, tapando o sol com uma peneira, nos recusando a assumir algo ou resistindo em acessar nossos reais sentimento sobre alguma coisa ou alguém.
Ilusões e fantasias também são mentiras que contamos para a gente mesmo. E às vezes tendemos a culpar os outros por não cumprirem expectativas que nós criamos, reforçando o círculo vicioso.
Então, está lançado o desafio da impecabilidade da palavra.
Se alguém quiser adotar a mesma “penalidade” que eu imputei a mim, pode aproveitar também para entrar em forma...
A verdade as vezes dói, mas ela liberta.
Esse compromisso é fundamental para a gente avançar de nível no auto aprimoramento, escapar dos caminhos enganosos da própria mente e enveredar pela senda da verdadeira transformação.
Pois purificando nossa palavra vamos purificando nosso campo de energia.
E é assim, no final das contas, que verdadeiramente iluminamos o nosso caminho - com a luz que vem de dentro e não de fora.
Uma luz que se acende quando nos permitimos manter nossa integridade na vida cotidiana, preenchidos pela magia de expressar quem a gente verdadeiramente é.
Um grande abraço e até a próxima
Érika Fernandes-Pinto
