Tem um dizer popular que fala que agosto é o mês do desgosto.
Isso tem sua razão de ser. Mas eu sou do time que prefere acreditar em um agosto com gosto, ainda que com seus desafios.
Esse é o mês de preparação para a primavera, a estação do florescimento.
É regido pela força e a potência do signo de Leão, quando o sol se encontra em casa.
Um período de grandes potencialidades e muita energia criativa, com vários alinhamentos planetários poderosos.
A jornada do herói em busca de si mesmo
O leão é tido como um rei na natureza.
Um símbolo de poder, força, vigor, valentia, charme, lealdade, independência e orgulho.
Esse arquétipo representa a jornada do herói, o processo de evolução da alma humana, chamado de individuação na psicologia junguiana.
O caminho de transformação do ego ao self.
Explicando um pouquinho, o ego pode ser entendido como quem a gente acha que é e tenta mostrar que é. Atendendo expectativas do mundo, cumprindo determinados papéis sociais e se enquadrando em modelos para projetar uma imagem idealizada.
E o self seria quem a gente é de verdade, a nossa essência.
Dizem que todos os perrengues que a gente passa na vida tem esse único objetivo - levar a nossa alma à descoberta do self.
Assim, a jornada do herói pode ser resumida como o processo de descoberta da gente mesmo.
Algo que pode parecer simples, mas não é!
Para cumprir essa jornada, precisamos abdicar de ser quem os outros querem que a gente seja.
E nos despir de todas as máscaras que criamos ao longo da vida para nos proteger e projetar.
A coragem de não agradar
Para isso, é necessário olhar para dentro. Descobrir o que nos faz feliz de verdade. Com o que e com quem temos realmente afinidade.
Por conta disso, é uma energia que também fala muito de desapego.
Não tanto do desapego material, mas principalmente do emocional e afetivo.
Porque são esses apegos que mais dificultam a expressão do ser quem a gente é.
São eles que nos fazem não querer desagradar ou contrariar quem a gente gosta.
E por mais louvável que seja tentar manter uma boa relação com as pessoas à nossa volta, o fato é que expressar a nossa verdade interior pode incluir - e frequentemente inclui - o ato de desagradar.
Para ser quem a gente é, é preciso estabelecer limites.
E às vezes também é necessário mostrar os dentes, dar umas rosnadas e, eventualmente, até umas rugidas mais altas.
A força de leão traz à tona tudo isso!
Se a gente estiver fazendo nosso trabalho direitinho, ela representa uma tremenda energia de expansão.
Mas se a gente estiver patinando e resistindo a mudar, corremos o risco de levar algumas chapuletadas da vida.
Que no final das contas são benéficas para o nosso crescimento, ainda que possam causar alguns desgostos.
Assim, o Portal de Leão energeticamente é um período de muitas oportunidades.
Ele nos traz uma força de apoio para vencer nossos medos mais profundos. Romper as barreiras que nos limitam e impedem de expressar nosso pleno potencial.
A confiança para deixar velhas estruturas para trás e seguir no rumo à nossa verdadeira missão de vida.
E o mês de agosto é tempo de reforçar alguns aspectos desse potencial de criação e autoafirmação leonino.
Para isso, convido a relembrar duas histórias que tem significados relacionados com as energias desse período.
Vamos lá?
O mito do leão de Neméia e o nosso maior inimigo
O signo de Leão na mitologia grega remete à história dos 12 trabalhos de Hércules.
Seu primeiro desafio foi matar um leão que atemorizava o vilarejo de Neméia e se escondia em uma caverna.
Um ser tido como indestrutível porque tinha a pele impenetrável como uma armadura e os ossos inquebráveis, então armas não o atingiam.
Hércules não conseguia vencê-lo com suas habilidades de batalha.
Depois de muito pelejar, mudou de estratégia e penetrou secretamente na caverna pelo lado contrário, sem armas.
Diante dessa nova perspectiva percebeu que os olhos do temido leão eram na verdade espelhos, que refletiam sua própria imagem.
Ao descobrir que a batalha que enfrentava era contra si mesmo, Hércules conseguiu dominar a fera e a estrangulou.
Ao tirar o animal da caverna, percebeu que o temido monstro não era tão grande assim.
Hércules então se vestiu com a pele do leão e se tornou muito mais confiante para enfrentar os desafios seguintes.
O mito do leão de Neméia representa diferentes níveis do orgulho humano e a luta para vencer nossas feras internas.
Algo que só pode ser feito olhando nos olhos do que mais nos atemoriza!
Matar o leão e vestir sua pele significa ter enfrentado e dominado os próprios medos e inseguranças.
Uma vitória pessoal necessária para alcançar o ideal de grandeza e poder individual que, no final das contas, representa a retomada da própria identidade.
O que nos leva a uma outra história, mais moderna, mas igualmente cheia de simbolismos.
Lições do Rei Leão
Eu sou fã da animação Rei Leão desde a sua primeira versão (Disney, 1994).
É uma história que acredito que tenha cativado todo mundo que a assistiu.
Mas ele ganhou uma conotação ainda mais especial na minha vida quando assisti seu relançamento, em 2011, junto com o meu filho, que na época tinha 9 anos.
Foi emocionantemente lindo!
Acredito que esse filme marcou a infância dessa geração tanto quanto ET marcou a minha.
Conta a saga do jovem leão Simba enfrentando as agruras da vida em busca de descobrir e assumir quem ele verdadeiramente é.
Um filme atemporal, que fala com todas as idades e continua ensinando grandes lições sobre a jornada da vida.
Uma história forte e cheia de simbolismos.
Que toca profundamente os nossos corações porque representa vários arquétipos do processo de evolução da alma humana e do processo de individuação.
Que fala sobre amizades verdadeiras, sobre como lidar com perdas, sobre como nos libertarmos de culpas.
E sobre o equilíbrio delicado que rege nosso sistema, onde todos têm o seu papel. E como tudo está interligado no grande ciclo da vida.
Algo tão simples, mas que a nossa sociedade em grande parte esqueceu.
Mas vamos à história...
(alerta de Spoiler, caso você ainda não tenha visto do filme)
Tudo corria bem no território no coração da África governado pelo leão rei Mufasa, pai de Simba.
Até entrar em cena Scar, seu tio, que inveja Mufasa e disputa o poder sobre o reino.
Scar representa o lado das sombras de leão aflorado. Do ser que, dominado pelo egocentrismo, se deixa levar pela vaidade e arrogância.
Uma sequência eletrizante de acontecimentos leva à trágica morte de Mufasa.
Cenas fortíssimas, que eu não consigo entender como foram liberadas para estarem em um filme infantil. Pois até hoje eu invariavelmente derramo algumas lágrimas sempre que assisto... (e você?)
Sem saber das armações de Scar, Simba se culpa pelo ocorrido com seu pai. E com isso embarca em um processo de culpa que o leva a duvidar de suas capacidades e a se perder de si mesmo.
Querendo fugir desses sentimentos, ele toma o caminho de se isolar e se entregar a uma vida "sem preocupações", esquecendo os problemas e afastado-se do seu verdadeiro caminho.
Mas quando se deixa um passado mal resolvido para trás Hakuna Matata só se sustenta enquanto os sentimentos estão anestesiados ou entorpecidos.
Porque viver a nossa missão de vida exige sim responsabilidades, compromisso e disciplina. Ainda que tudo isso possa ser feito com leveza.
Pois, como dizem os padrinhos do Santo Daime, a farda - que representa o servir - não deve ser um fardo.
Mas quanta gente não acaba a vida assim, perdido em um mundo de ilusão e sem viver a sua real missão?
Se lembre de quem você é
Na história do Rei Leão, quando o usurpador representado por Scar assume o reino, ele ameaça destruir aquilo que Simba mais ama.
Seus amigos vêm lhe avisar e buscar sua intervenção, lembrando o papel da verdadeira amizade, das pessoas que se esforçam para nos tirar de zonas de conforto desconfortáveis.
Que cutucam as nossas feridas quando é preciso, nos estimulando a voltar para o nosso verdadeiro caminho.
Mas Simba, ferido pela culpa e falta de autoestima, se acha incapaz de fazê-lo.
Porque a gente esquece de quem a gente é quando não ocupa o nosso lugar de direito no mundo.
A voz do Pai, no entanto, continua ecoando...
O ciclo de desconexão do jovem leão começa a se quebrar quando ele ouve esse chamado e tem uma visão com seu pai.
Ela vem do Céu, mas brota de dentro e convoca Simba a enfrentar aquilo que ele acha que lhe limita.
O papel do pai na formação da nossa personalidade tem tudo a ver com a nossa capacidade de realização.
Na confiança que temos na nossa própria força e com o nosso senso de amor próprio.
(Não é por acaso que em agosto também se comemora o Dia dos Pais...)
Mas não estamos falando apenas dos nossos pais terrenos. Também envolve a busca do pai maior dentro de nós.
Um encontro que - não raro - é desencadeado por algo parecido a uma experiência mística.
Como acontece quando Rafiki, o macaco mandril-xamã leva Simba para ver o seu próprio reflexo no lago.
E o ajuda a se enxergar como ele verdadeiramente é – um leão crescido, forte e imponente, à imagem e semelhança do seu Pai.
Para lembrar de quem a gente é, precisamos da ousadia de desafiar o que nos desafia.
Confrontar o passado!
Muitas vezes voltar para casa para encará-lo, descobrir a verdade e ressignificá-lo.
Aprender as lições que as dificuldades que passamos tinham a nos ensinar.
Crescer, enfim, envolve o doloroso processo de enfrentar nossas sombras e medos. E nos libertarmos das culpas.
Assim Simba desperta para sua missão...
E ainda com medo, dá uma bela lição sobre a coragem de ser vulnerável.
Mostrando que a consciência do que temos a perder muitas vezes é o que nos dá os motivos que temos para lutar.
E que coragem não significa não temer, mas sim colocar o medo no lugar certo.
Que não é na nossa frente, paralisando a tomada de iniciativa. Mas nas nossas costas, estimulando a prudência no agir.
E com isso, como acontece com Simba, conquistar a força interior necessária para defender nosso reino.
E chegar, por fim, à recompensa!
A satisfação do despertar do leão interior.
O equilíbrio de integrar as polaridades.
O reconhecimento da nossa verdadeira essência.
O desabrochar dos nossos dons.
A glória da conquista da própria luz, que aflora exteriormente o brilho que vem de dentro.
E que só emana dessa forma autêntica naqueles que encontram dentro de si a força da autorealização.
Assim acontece a reconstrução do ciclo da vida, em um novo patamar.
Em conexão com a nossa essência, com a compreensão das nossas reais necessidades e os desejos verdadeiros da alma.
Assim, essa história lembra também da importância da autoestima e do amor próprio na energia do leão positivado.
Que nada tem a ver com o egocentrismo do seu lado sombra.
Quantos não passam a vida - ou boa parte dela - tentando se encaixar em caixinhas moldadas pela sociedade?
Construindo uma imagem idealizada e reproduzindo comportamentos adequados para pertencer a um grupo, uma família ou a um nicho social?
Se enredando em uma teia de cobranças excessivas?
Vestindo couraças que se transformam em armaduras?
Estratégias que, ainda que criadas como uma forma de autoproteção, também nos impedem de liberar nosso verdadeiro potencial.
Porque aquilo que a gente cria para nos proteger das desventuras da vida, também nos protege das suas venturas e aventuras.
Da alegria mais profunda, do amor verdadeiro e da autorealização.
O rugido do leão
Por isso que ser quem a gente verdadeiramente é, ainda que possa soar como uma frase meio clichê, é o resultado de uma conquista das mais difíceis e árduas.
Algo que só os heróis conseguem!
Envolve descobrir onde está o nosso coração e a ordem dos nossos valores.
Ter a coragem necessária para fazer escolhas, estabelecer prioridades que tem a ver com os nossos objetivos, e não com os dos outros.
Nos comprometer com isso de forma intensa e disciplinada.
E assim conseguir crescer e expandir naquilo que a gente acredita.
Apenas quando a gente vence as barreiras que limitam nossa expressão e assume as consequências de lidar com os ônus e os bônus disso é que nasce a autenticidade.
Pois como canta Caetano Veloso, na música O dom de Iludir, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que se é”.
Agosto traz uma força que ajuda a criar exteriormente as mudanças que queremos na nossa realidade e a despertar nossos talentos.
Convida a nos prepararmos para as tarefas futuras, com planejamento e organização.
Se agosto será lembrado como mês de desgosto ou será vivido com mucho gosto depende de cada um.
Do quanto nos dispomos a realizar nosso trabalho pessoal de autoconhecimento e crescimento.
Para isso, não tenham receio de cutucar e acordar o seu leão interior.
E rugir bem alto!
Agosto, cumpra seu ciclo com gosto!
Gosto de superar.
Gosto de crescer.
Gosto de perseverar.
Gosto de amar.
Gosto de surpreender.
Gosto de confiar.
Gosto de agradecer.
Venha e vá com gosto, agosto.
Ao nosso gosto.
E ao gosto de Deus!!
Por que só quem vive bem os agostos é merecedor das primaveras!
E eu não sei você, mas assim como os ipês que nessa época enfeitam Brasília, tô pretendo florir!!!
Érika Fernandes Pinto
(primeira versão - Brasília, 24/08/2022)










