Antes de mais nada, tenho uma confissão a fazer...
Eu não sou muito fã de círculos do sagrado feminino!
Não por qualquer preconceito ou por não reconhecer a importância dessa conexão. Mas porque na maioria dos que já tive oportunidade de estar, não consegui me conectar muito com a proposta.
Acho legal trabalhar a feminilidade, a conexão com o útero, as fases do ciclo menstrual, a gratidão pela família, ancestralidade e coisa e tal.
Mas o reino de fadas e princesas em meio a flores, de cantos suaves de vozes doces e cores em tons pastéis não é muito a minha praia.
Sou mais chegada na energia selvagem do preto e do vermelho das Pombagiras, da força guerreira e tempestuosa de Yansã, da magia e das danças Ciganas.
Das feiticeiras que não tem receio em não serem boazinhas.
Das "mulheres que correm com os lobos", uivam para a lua e mostram as garras e rosnam mais do que afagam.
Mas o que é o sagrado feminino senão o resgate dessa mulher selvagem, não domesticável, não submissa e dona de si? Que solta a sua voz com potência e coragem, sem medo de ser quem é e sem pudores de não agradar?
Empoderamento feminino, na minha opinião, tem a ver com assumir a responsabilidade e o poder de decisão sobre a própria vida.
Acreditar em si mesma e na sua capacidade de "dar conta do recado".
Exercer seus dons com maestria e sem falsa modéstia, sem depender de aprovação, segurança ou reconhecimento externo.
Mas sem se apartar nem negar o masculino, reconhecendo a complementariedade das forças e a alegria que vem das trocas saudáveis e do compartilhar não contaminado por energias de apego e carência.
Na minha opinião, honra o sagrado feminino a mulher que explora a sua sexualidade com autonomia. Que sabe que o prazer é um direito divino inato, e não uma concessão que lhe é dada por alguém.
A mulher que entende e respeita suas emoções, assume as suas vulnerabilidades sabendo que isso não a torna frágil, e sim forte. Mas que não se deixa dominar pela sua criança ferida, tantas vezes também mimada.
A que segue seu coração acima das normas sociais, sabendo transgredir sem destruir.
Que vê outras mulheres como aliadas, e não como concorrentes. E que não entra em disputas ou "bolas divididas", pois sabe que o que é seu ninguém pode tirar.
A mulher que sabe que a única forma de não ser vítima dos padrões sociais e abusos machistas é não assumindo o papel de vítima. E tomando para si a responsabilidade de mudar a sua realidade.
Que sabe dizer não e impor limites. Se desapegar na hora certa e mandar embora da sua vida quem lhe cerceia a liberdade, os sonhos e a autonomia.
Que busca em um companheiro alguém para compartilhar a beleza e os desafios da vida, e não para cumprir um papel social.
Que sabe ser afetuosa primeiro consigo mesma.
E que abre as suas asas para voar, seguindo sua jornada sem temer o corte de novas feridas. Pois, como canta Gonzaguinha (na música Eu apenas queria que você soubesse), tem a saúde que aprendeu com a vida!
Eu demorei algumas décadas para descobrir como me amar e fazer por mim aquilo que eu fazia com facilidade para os outros. A cuidar eu mesma da minha criança ferida e suprir eu mesma as minhas carências.
Dentre as flores, hoje prefiro as rosas vermelhas, que com seus espinhos resguardam seu perfume e beleza para quem se aproxima com cuidado, carinho e respeito.
E se for diferente disso, espetam!
De resto, quando identifico em mim algo que contradiz esses princípios, não me acomodo neles e batalho para me transformar naquilo que for necessário!
E você?
Bora trocar aprendizados em uma roda do Sagrado Feminino Selvagem?
De preferência com homens junto?
Pois é apenas ajudando eles a compreenderem o universo feminino e a resgatarem essa energia também em si que fazemos a nossa parte para auxiliar a equilibrar as polaridades e viver a harmonia nas nossas relações.
Por Érika Fernandes Pinto, 24/06/2022
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