RESPONSABILIDADE E SEGURANÇA NAS CERIMÔNIAS DE AYAHUASCA



Nas últimas décadas, a expansão do uso da Ayahuasca nos meios urbanos vem sendo acompanhada por uma proliferação de abertura de “casas de rezo” e pela facilitação do acesso às chamadas “medicinas da floresta”.


Por um lado, isso tem permitido que muito mais pessoas possam ter acesso a essas substâncias e práticas como forma de cura, autoconhecimento e expansão espiritual. 


Mas, por outro, há também um clima de banalização do uso das substâncias. De gente que passa a achar que tudo na vida se resume a usar essas medicinas para curar qualquer coisa. 

E que acaba por se desconectar da realidade, perdendo o foco nas atitudes do dia a dia, saindo de uma ilusão para cair em outra.


Eu viajo bastante e sempre procuro conhecer casas e linhas novas nesse meio. 

Algumas dessas experiências, além de me trazer novas amizades, me agregaram muito conteúdo e me despertaram para novos campos de estudo. 


Mas outras serviram mais como "lições do que não se deve fazer"!


É surpreendente e assustador ver como há gente inexperiente servindo Ayahuasca para grupos diversos que pipocam por todos ao lados. 


Pessoas que dizem que "sentiram um chamado" para servir a medicina e que passaram a fazê-lo mal tendo iniciado a sua caminhada nesse universo. 


Há quem acredite que a Ayahuasca por si própria faz tudo que é necessário para uma boa experiência dos participantes E que é só servir a medicina e "tocar pau na playlist” que a mágica acontece.  


Mas não é bem assim... 


Trabalhos sem estrutura e sem condução ritualística, em que os participantes ficam deitados cada um para um lado por sua conta e que muitas vezes não tem nem mesmo um protocolo de abertura e encerramento, podem trazer mais danos do que benefícios. 


A pessoa entra no trabalho buscando mais clareza para a sua vida e sai na mais completa confusão. Vai na cerimônia para se limpar energeticamente e volta dela cheio de tranqueira. 


O cuidado com o espaço cerimonial tem a ver com a proteção do campo energético dos participantes do rito, que ficam muito ‘abertos’ durante as experiências.

 

Durante um ritual, energias negativas se aproximam e ataques espirituais acontecem, quer se acredite nisso, quer não. 

Não é à toa que a maioria das tradições religiosas tem ritos de proteção e consagração dos seus templos e espaços cerimoniais. 


A ignorância e a descrença nisso não protege ninguém. 



Eu já fui em algumas cerimônias assim, desprotegidas. 


Que não tem rito de abertura com invocação das forças de proteção nem de encerramento - largando os

os participantes deitados e dormindo no salão ou voltando para suas casas sem um fechamento de campo.


Que não avaliam corretamente a questão das interações medicamentosas adversas com as medicinas e permitem que participantes não aptos física e psicologicamente as consagrem.


Minha gente, não basta apenas boa intenção para começar a servir a Ayahuasca. 


É preciso estudo, muito estudo! 


E muita experiência! 


Com as medicinas e sem elas. 

 

Pois como diz o ditado, de boa intenção o inferno está cheio.


E o diabo mora nos detalhes.


Assim, quando for procurar um lugar para consagrar, esteja atento a eles. 


Devo admitir que, ao longo da minha caminhada, também já fiz trabalhos de Ayahuasca sem tantos cuidados. Mas participavam deles apenas amigos próximos, em círculos fechados.

 

Pessoas queridas que foram minhas “cobaias” no meu processo de amadurecimento dentro da medicina. E que por conta disso passaram por alguns perrengues comigo (Nicole, essa é pra você!). 


Mas que me ajudaram muito a me firmar nessa caminhada e ir buscando cada vez mais seriedade e responsabilidade nesse processo. 


Do momento em que eu "senti um chamado" para servir a medicina até o momento em que comecei a fazer isso de forma aberta, passaram-se mais de 10 anos.

 

Nesse meio tempo, fiz vários processos iniciáticos junto a tradições indígenas e não indígenas. Visitei dezenas de aldeias, fiz imersões em algumas delas. Conheci casas de rezo de diferentes linhas, em diversos países e estados brasileiros

E fiz algumas centenas - quiçá milhares - de rituais com Ayahuasca. 


Além disso, estudei muito - da literatura espiritual/esotérica e do conhecimento científico. 


E vivi muito!


Posso dizer que conheci a fundo as belezas e o potencial de cura das medicinas. 

Mas também vi as suas trevas, o lado sombrio que acompanha qualquer processo verdadeiro de ascender à luz. 


Aprendi na vida que a experiência com Ayahuasca, além dos seus encantos, também tem seus riscos. 


Que não só aqueles das prescrições médicas, porque o mundo espiritual é cheio de armadilhas. 


Perigos reais que muitas vezes ficam ocultos nas falas românticas sobre as propriedades curadoras incríveis e mirações maravilhosas proporcionadas pela medicina. 


Desconfie desses discursos! 


Os riscos de participação em uma cerimônia de Ayahuasca podem envolver desde aspectos físicos (ex. cair, bater em algo e se machucar, desmaiar) e psicológicos (ter crise de ansiedade, medo, pânico), até o desencadeamento de comportamento agressivo entre participantes, interpretações arriscadas das mirações (ex. ter capacidade de voar, de atravessar o fogo), além de eventos de relação tóxica entre dirigentes ou facilitadores e participantes. 


Esse último ponto em particular, é gravíssimo e muitos pesquisadores estão alertando para ele (como Bia Labate e pessoas ligadas ao Instituto Chacruna e a MovAya - Movimento de Combate a abusos no meio ayahuasqueiro).


Por que infelizmente, com o processo de expansão do uso da Ayahuasca, também vem se proliferando as denúncias de irresponsabilidade e abusos morais e sexuais praticados sim em casas ayahuasqueiras. Inclusive em algumas bastante tradicionais. E acometendo líderes até então super respeitados no meio espiritualista.

 

Essa é uma realidade que não pode ser disfarçada, acobertada ou negligenciada, pois exige a tomada de posturas firmes e de comprometimento ético das casas.


E se você por ventura pensar que a solução mais segura então é buscar por uma experiência indígena, sinto informar que também não é bem assim. 


Todas essas questões que podem acometer as casas de rezo também acontecem em trabalhos realizados por indígenas - nas cidades e nas aldeias. Mas esse é assunto para outro texto... 


Para minimamente se precaver e ter uma experiência de consagração segura, observe se as pessoas envolvidas na condução do trabalho conhecem as contra indicações e os protocolos de segurança da Ayahuasca e demais medicinas que serão utilizadas, bem como para a procedência das mesmas. 


Se a casa está preparada para atender as diversas situações complicadas que podem acontecer durante um ritual. 


Treine seu discernimento para perceber o que é "perfumaria espiritual" e "Cosplay de pajé indígena" e atente para o que realmente importa: se a casa faz uma boa proteção de campo para a realização de um trabalho de expansão de consciência. E se serve as medicinas com firmeza, respeito e responsabilidade.


Independentemente do contexto, se urbano ou rural, indígena ou não indígena, uma preparação cerimonial responsável e uma conduta adequada antes, durante e após o rito são fundamentais para minimizar os riscos e favorecer o acesso aos benefícios da experiência. 


Assim, antes de fechar os olhos e se entregar à força e às mirações, use a sua capacidade de observação e de avaliação crítica. 


E jamais delegue a terceiros a sua autoresponsabilidade!


Hoje sou bem rigorosa na organização das cerimônia que conduzo. Mas busco não ser rígida, estando aberta para o que o campo e os participantes tem a oferecer, seguindo um estilo que alguns chamam de uma "condução orgânica". 


Minha forma de trabalhar com as medicinas nem sempre é apreciada por todos - principalmente por aqueles que vêem esses momentos como "baladas espirituais", que embarcam na onda do "Haux Haux só alegria", do "showmanismo" ou o "xamanismo de colchão" (assuntos também para outros textos...). 


Mas prefiro desagradar alguns e manter uma conduta responsável e coerente com os princípios que defendo, do que abrir mão dos preceitos que visam garantir a segurança da experiência e dos participantes. 


O que para nós, vem sempre em primeiro lugar!



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Para saber mais sobre esses assuntos recomendamos a leitura do Guia para organizadores e participantes de melhores práticas na Ayahuasca do ICEERs


E dos materiais do Movimento Nacional de Combate

ao abuso no Meio Ayahuasqueiro


No Instagram, recomendados o perfil de @caroline_apple, que traz reflexões interessantes, pertinentes e, por vezes, "indigestas" sobre os bastidores do mundo ayahuasqueiro.  


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E se sentir afinidade com a nossa linha de pensamento e condução cerimonial, fica o convite para conhecer o nosso trabalho. 

Contato: 61-981041130 (@erikafernandespinto)


Por Érika Fernandes Pinto, 27/06/2022