NEM TUDO QUE RELUZ É OURO: ARMADILHAS DO CAMINHO ESPIRITUAL



Nem tudo são flores quando se decide seguir um caminho espiritual. Dúvidas, confusões, mal entendidos, ilusões, desvios, armadilhas e perigos também fazem parte dessa seara. 

E podem levar ao que alguns autores chamam de "distorção egocêntrica da espiritualidade”, caracterizada por Chögyam Trungpa na década de 1970 como materialismo espiritual

O fato é que o danado do ego consegue distorcer todas as coisas em proveito próprio, até a espiritualidade.

Esse é um assunto que eu conheço relativamente bem, porque acho que caí em muitas das armadilhas que já vi descritas por aí na minha trajetória. 

Durante um tempo, achei que isso me desqualificava para conduzir cerimônias espirituais. 
Mas aos poucos fui resignificando a minha própria história e descobrindo que esse processo pessoal, bastante doloroso, ajudou em muito a, no fundo, me qualificar para isso. 

Pois conhecer as armadilhas do caminho espiritual permite perceber elas com mais facilidade e, quando pertinente, ser uma boa orientadora.

O assunto é longo e um tanto complexo. Vou me ater aqui a destacar alguns pontos principais, pois fico feliz quando a minha experiência e aprendizados ajudam outras pessoas a não cometerem os mesmos equívocos.

No começo da minha trajetória em meio as medicinas da floresta, fiquei encantada e um tanto deslumbrada com as experiências que tive em pleno coração da floresta amazônica. E acreditei que devia elas ao pajé que conduziu os rituais. 

Fiz de tudo até ele me aceitar como "aprendiz" e mergulhei no processo de iniciação com todo meu ser, investindo tempo, recursos financeiros, habilidades profissionais, me dedicando ao processo de corpo, coração e alma e abrindo mão de muitas coisas importantes da minha vida pessoal.

Ainda que essa tenha sido uma experiência incrível, de muitos aprendizados e aventuras, emergi desse processo de dois anos quase destruída - fisicamente, emocionalmente, psicologicamente e espiritualmente

Como disse uma amiga minha, o mergulho por pouco não virou um afogamento...

Demorei dois anos para me recuperar! 

E foi graças ao acolhimento familiar, a ajuda dos amigos verdadeiros e de bons profissionais que sobrevivi e me reconstruí. 

Assim, meu primeiro e maior equívoco foi entregar o meu poder pessoal a outra pessoa e confiar cegamente em um mestre terreno. 

Pois como canta Milton Nascimento, "fé cega, faca amolada". 

Quando damos a alguém o poder de nos guiar e nos "despertar", passando por cima da avaliação crítica e da conexão com a nossa verdade interior, também damos a esse alguém o poder de nos destruir. 

E, conhecendo hoje um pouco mais de psicologia e constelação sistêmica, percebo que esse é o destino quase que inevitável de quem segue por esse caminho...

Compreendi, a duras penas, que o desenvolvimento de poderes espirituais e habilidades de cura não tem uma relação direta com o desenvolvimento do caráter humano. 
Nem com um efetivo comprometimento com a evolução espiritual. 

Por isso temos visto nas mídias e nos bastidores da espiritualidade tanto mestres famosos pela pretensa "iluminação espiritual" caírem em armadilhas beeeem mundanas. 

Hoje entendo que a atribuição de características de santidade, de pureza e de porta-vozes da verdade, bem como do status de iluminados a mestres, gurus e pajés, provém de uma romantização inocente, em alguns casos até infantil. 


E que na verdade isso afasta as pessoas do verdadeiro propósito do desenvolvimento espiritual, que deveria ser o da conexão com o próprio mestre interior e a automaestria


Isso não significa que não podemos aprender com pessoas que trilharam caminhos significativos nesse campo e que se dispõem a compartilhar suas experiências. 


Mas não se deve confundir a mensagem com o mensageiro! 


Osho usa um exemplo interessante para explicar essa diferença em um de seus livros. Diz que é como se chegasse um carteiro em nossa casa trazendo uma notícia muito boa e importante. E ao invés de nos atermos à mensagem, quiséssemos ficar com o carteiro!


Mestres, no fundo, são apenas carteiros...


Acredito que os verdadeiros instrutores no mundo espiritual são como bons professores, que nos orientam e estimulam a aprender por conta própria a desenvolver nossos talentos. 


Não são aqueles que tem mais discípulos ou seguidores e que os mantém sob suas asas, como seguidores dos seus passos. E sim aqueles que formam mais outros mestres, auxiliando os que passam pelo seu caminho a fortalecer as próprias asas e se lançarem nos próprios vôos. 

Se tornando, inclusive, melhores do que eles! 


Hoje adoto na minha vida pessoal e na minha forma de condução cerimonial os ensinamentos de Krishnamurti, expostos no interessantíssimo "Discurso de dissolução da Ordem da Estrela do Oriente" - quando ele fechou um grupo criado para seguir seus ensinamentos, não aceitando que lhe atribuíssem mais qualquer autoridade espiritual ou política. 

(Leia AQUI)


Por isso também não me coloco e não gosto de ser colocada no papel de "madrinha". 


Minha função nas cerimônias é ser uma guardiã dos participantes e uma facilitadora da experiência de estudo e conexão pessoal de cada um. 


E ser também um canal para auxiliar na manifestação de forças, poderes e conhecimentos que afloram na medida em que cada pessoa contribui com a sua energia na corrente - em um campo que se expande de acordo com a abertura do grupo para o aprendizado. 


Nesse processo, busco ser o melhor canal possível, estando sujeita, no entanto, a falhas e equívocos inerentes ao papel de mensageira, e não de fonte da verdade.


Sigo continuamente aprendendo e também revendo meus pontos de vista. Minha principal bandeira é a liberdade e não acredito em sistemas que limitam a investigação pessoal a uma ou outra vertente e que sejam pautados em laços de exclusividade, autoridade e dependência.


Fico feliz em poder compartilhar minhas experiências e os aprendizados adquiridos nos caminhos que percorri, bem como os princípios que sigo e que dão sentido à minha jornada de busca pessoal. Afinal, o que nos fez e faz bem, temos o dever e o prazer de dividir com quem gostamos, não é?  


Mas tenho consciência de que a forma como eu os interpreto é apenas uma leitura dentre muitas possíveis e que cada um deve seguir a verdade que lhe fala o próprio coração.

 

O convite aqui, portanto, é para sermos companheiros de viagem e empreendermos juntos a melhor trajetória possível. 


Tornando-se, cada um, mestre de si mesmo!



Érika Fernandes Pinto, 24/06/2022