Hoje entendo que a atribuição de características de santidade, de pureza e de porta-vozes da verdade, bem como do status de iluminados a mestres, gurus e pajés, provém de uma romantização inocente, em alguns casos até infantil.
E que na verdade isso afasta as pessoas do verdadeiro propósito do desenvolvimento espiritual, que deveria ser o da conexão com o próprio mestre interior e a automaestria.
Isso não significa que não podemos aprender com pessoas que trilharam caminhos significativos nesse campo e que se dispõem a compartilhar suas experiências.
Mas não se deve confundir a mensagem com o mensageiro!
Osho usa um exemplo interessante para explicar essa diferença em um de seus livros. Diz que é como se chegasse um carteiro em nossa casa trazendo uma notícia muito boa e importante. E ao invés de nos atermos à mensagem, quiséssemos ficar com o carteiro!
Mestres, no fundo, são apenas carteiros...
Acredito que os verdadeiros instrutores no mundo espiritual são como bons professores, que nos orientam e estimulam a aprender por conta própria a desenvolver nossos talentos.
Não são aqueles que tem mais discípulos ou seguidores e que os mantém sob suas asas, como seguidores dos seus passos. E sim aqueles que formam mais outros mestres, auxiliando os que passam pelo seu caminho a fortalecer as próprias asas e se lançarem nos próprios vôos.
Se tornando, inclusive, melhores do que eles!
Hoje adoto na minha vida pessoal e na minha forma de condução cerimonial os ensinamentos de Krishnamurti, expostos no interessantíssimo "Discurso de dissolução da Ordem da Estrela do Oriente" - quando ele fechou um grupo criado para seguir seus ensinamentos, não aceitando que lhe atribuíssem mais qualquer autoridade espiritual ou política.
(Leia AQUI)
Por isso também não me coloco e não gosto de ser colocada no papel de "madrinha".
Minha função nas cerimônias é ser uma guardiã dos participantes e uma facilitadora da experiência de estudo e conexão pessoal de cada um.
E ser também um canal para auxiliar na manifestação de forças, poderes e conhecimentos que afloram na medida em que cada pessoa contribui com a sua energia na corrente - em um campo que se expande de acordo com a abertura do grupo para o aprendizado.
Nesse processo, busco ser o melhor canal possível, estando sujeita, no entanto, a falhas e equívocos inerentes ao papel de mensageira, e não de fonte da verdade.
Sigo continuamente aprendendo e também revendo meus pontos de vista. Minha principal bandeira é a liberdade e não acredito em sistemas que limitam a investigação pessoal a uma ou outra vertente e que sejam pautados em laços de exclusividade, autoridade e dependência.
Fico feliz em poder compartilhar minhas experiências e os aprendizados adquiridos nos caminhos que percorri, bem como os princípios que sigo e que dão sentido à minha jornada de busca pessoal. Afinal, o que nos fez e faz bem, temos o dever e o prazer de dividir com quem gostamos, não é?
Mas tenho consciência de que a forma como eu os interpreto é apenas uma leitura dentre muitas possíveis e que cada um deve seguir a verdade que lhe fala o próprio coração.
O convite aqui, portanto, é para sermos companheiros de viagem e empreendermos juntos a melhor trajetória possível.
Tornando-se, cada um, mestre de si mesmo!
Érika Fernandes Pinto, 24/06/2022
