PERIGOS DA ROMANTIZAÇÃO DAS EXPERIÊNCIAS COM AYAHUASCA


 O primeiro mal que acomete os novatos - e os não tão novatos - no meio ayahuasqueiro é o fascínio pela experiência e pela substância. 

Um novo universo se abre à nossa frente e apenas temos que nos permitir adentrar nele para viajar por esse mundo novo e encantador. Pagando apenas o preço das sessões e o esforço de limpar nosso corpo e nossa energia passando de vez em quando pelas famosas “peias”. 


Esse fascínio se intensifica quando se associa às substâncias utilizadas o poder de curar o que consideramos que nos adoece. 


Essa relação que comumente se estabelece hoje em dia entre quem vive nos centros urbanos com as chamadas “medicinas da floresta”, nem sempre foi assim. 

E, a meu ver, distorce um pouco o verdadeiro papel das substâncias, se tornando preocupante quando começa alimentar diversos tipos de fantasias.

 

Uma das coisas mais comuns que acontece nesse interim, é uma supervalorização das "mirações” - nome dado às visões psicodélicas promovidas pela Ayahuasca, como chama a atenção Caroline Apple (@caroline_apple) em uma sequência de posts do Instagram que tem como tema “Ayahuasca e a romantização ocidental”.

 

Alguns pesquisadores desse campo (como Ido Hartogzon, israelense especialista em psicodélicos), vêm chamando a atenção para isso e para o processo de esvaziamento dos sentidos originários das tradições ayahuasqueiras. 

 

Enquanto os povos indígenas percebem as visões da Ayahuasca como genuínas, mas questionáveis em termos de aplicação prática direta, o pessoal das cidades tende a atribuir a elas uma imensa importância, como parte essencial de um despertar espiritual centrado no recebimento de visões celestiais.


Esse "apego às mirações" pode levar muitas pessoas a colocarem literalidade em percepções que são altamente subjetivas e metafóricas, o que pode gerar confusões e inflar egos.

 

Frases como “eu vi ou eu recebi isso na força” se tornam chancela para ações e intervenções que envolvem terceiros. Além da sensação de se ser especial por ter recebido “pessoalmente” a visita de entidades espirituais.

Outro ponto relevante é a romantização em torno de uma suposta pureza dos povos da floresta, o que faz com que o primitivismo seja consumido como sinônimo de cura. 


Receber um sopro de um indígena e ter uma intuição, ouvir de algum deles uma frase em especial desencadeia processos pautados em uma “verdade” que nem sempre corresponde à realidade. 


A regra de muitos indígenas que saem de suas aldeias e vem para a cidade fazer trabalhos de ayahuasca hoje em dia é buscar atender às necessidades de fregueses sedentos por cura – cura de coisas que por vezes a pessoa nem sabe especificar o que é. 


Mas nem todos os indígenas que conduzem cerimônias de Ayahuasca são treinados nas artes curandeiras do xamanismo.

 

Em muitos meios, o uso de artefatos e adereços (ex. tepis gigantes, cocares enormes) acaba sendo mais valorizado do que a real qualificação das pessoas envolvidas

Muitos não indígenas também, mestres de Cosplay, passam a ser vistos como xamãs e pajés sem o serem. 

 

Além disso, o mundo do xamanismo indígena é bem mais complexo e ambíguo do que imaginam boa parte dos frequentadores de casas de rezo. 

Como alguns pesquisadores, profissionais de saúde e indigenistas que tiveram oportunidades de mergulhar em imersões não festivas em aldeias podem relatar. 

 

Nesse universo, bem e mal coexistem. 


Curadores que trazem o alívio de doenças e sofrimentos também são feiticeiros que “estragam” as pessoas. 


Poder espiritual não significa caráter... 


A vida em comunidade dos txai nem sempre é tão bonita quanto eles contam e há várias inimizades e disputas entre eles. 


E a “beleza da natureza selvagem“ pode ser bem mais difícil e sofrida de encarar na prática do que nos cantos e músicas de rezo.

 

Então queridos, atenção! 

Orai e vigiai sempre! 

 

Mirações não são verdades absolutas.

 

O contato com entidades espirituais não torna ninguém especial. 


Uma indumentária de xamã não faz de uma pessoa um xamã.

 

Um pajé não é um ser dotado de bondade e iluminação suprema. E sim um ser humano com todas as suas contradições. 

 

Adentrar em segurança nesse universo - que é sim maravilhoso - implica se despir não só das ilusões do ego, mas também das ilusões da espiritualidade. 

Que os relatos e as experiências das pessoas que, como eu, aprenderam isso na prática - e "comendo o pão que o diabo amassou" - possa ajudar aqueles que vem depois a não cometer os mesmos equívocos. 

Essa é a minha esperança e a minha maior motivação!


Por Érika Fernandes Pinto, 27/06/2022