Dentre as divindades africanas trazidas para o Brasil pelos negros, nenhuma foi tão difamada, estereotipada e mal compreendida como os Exus.
A conotação negativa foi dada a essas entidades principalmente pelos cristãos europeus colonizadores - e reforçada ao longo da história de repressão das tradições afrobrasileiras.
Em função principalmente da sua aparência nas representações antropomórficas - vestido de capa preta ou vermelha e com um tridente nas mãos - os Exus foram associados ao Diabo e poderes maléficos, sem um real entendimento de suas características e funções.
Exu é uma das principais divindades do panteão afrobrasileiro, considerado por algumas linhas como o maior dos Orixás, o mais importante, porque faz a comunicação, a ponte entre o humano e o divino.
Abre os caminhos removendo obstáculos, fecha ciclos que não nos favorecem mais para abrir novas portas. Protege de todos os males. Vigia as porteiras. Anda por todos os mundos.
Ainda que existam diferenças na interpretação dessas divindades em cada terreiro, todos seguem alguns fundamentos.
Exu é tido como o mensageiro entre os mundo. O Orixá da comunicação e da linguagem. O grande protetor. Símbolo de força e da sexualidade plena - a energia motriz que cria a vida. É o galo que canta na madrugada, a palavra reta, a estrada sem desvios, o compromisso.
Seu ponto de força está principalmente nas encruzilhadas. Das ruas e da vida. Encruzilhada não é lugar de ficar parado, então ele ajuda no movimento, a escolher a direção a seguir e não estagnar.
Tem como principal artefato o tridente, que representa os múltiplos caminhos. Além da capa preta, é frequentemente representando com cartola e bengala. Também é associado aos símbolos da caveira - o ser despido de todas as vaidades - e do falo - representação de vitalidade e fertilidade.
Divindade do fogo, trafega pelos vários níveis da luz e das sombras, conseguindo acessar campos mais densos onde os outros Orixás, que irradiam apenas luz, não penetram. Por isso é o Orixá invocado para libertação de vícios e questões kármicas mais pesadas.
Sua saudação é "Laroyê Exu!" e "Exu Emojubá", que significa "Salve o mensageiro". Seu dia da semana é segunda-feira e sua lua é a crescente, principalmente da meia noite até 3 horas. Seu alimento é o padê de farofa de dendê. Gosta de rosas vermelhas e suas pedras são a turmalina negra e a ônix. Suas ervas são a arruda e a folha-da-fortuna.
É a primeira divindade a ser invocada e firmada nos terreiros, pois sem ele, nada se faz. E o último que se vai. O Orixá primordial que oferece proteção, guarnição e segurança.
Pode ser invocado para ajudar na resolução de problemas materiais, financeiros, profissionais. Como canta Tainá Santos, "Exu é quem abre os caminhos".
Vários são os Exus de Lei dessa falange do Povo da Rua, sendo os mais frequentes Exu do Lodo (associado a Nanã), Exu Caveira (obaluaê), Exu Tiriri (Ogun), Exu Marabô (Xangô), Exu Gira Mundo (Tempo), Exu Lalu (Oxalá) e Tranca Ruas (associado a Oxossi).
A contra parte feminina dos Exus são as Pombagiras, representadas como mulheres fortes, sensuais, independentes, destemidas e donas de si - um símbolo por excelência da liberdade feminina e do seu empoderamento.
Difamadas pelo senso comum, minimizadas ao estereótipo de mulher vulgar e amoral, as críticas direcionadas à figura da Pombagira em muito se assemelham às críticas voltadas àquelas mulheres que se desviam da conduta determinada pela sociedade patriarcal.
E nisso as Pombagiras são mestras!
Quando aparecem nos terreiros, dão gargalhadas estridentes e dançam com sensualidade, lembrando a importância do prazer e da alegria de viver.
As mais frequentes nos terreiros são Maria Padilha (que serve a Yansã), Rosa Caveira, Maria Mulambo, Dama da Noite e Pombagira das Sete Encruzilhadas. Carregam histórias de mulheres que se depararam com as limitações, imposições e julgamentos da sociedade e não se renderam a elas.
E que prestam serviço espiritual auxiliando na libertação do jugo dos padrões sociais machistas opressores que colocaram as mulheres em posição de inferioridade, submissão, subserviência e recatamento.
Especialistas em questões relacionadas a relacionamentos amorosos, ajudam a se libertar de relacionamentos abusivos, a resgatar o auto-respeito e o amor próprio.
Eu tenho uma afinidade pessoal com Exu Caveira (o senhor dos ossos, grande protetor) e com Maria Padilha (rainha cigana) e adoro cantar para eles. Aprendi não faz muito tempo a firmar a energia desses guardiões nos meus rituais, na minha casa e na minha vida e só tenho recebido bençãos.
Na gira, quando se vai adentrar na energia dos Exus e das Pombagiras, se costuma dizer que "vai virar a banda para a linha da esquerda". Aí, meus amigos, é só festa!!!
Não é qualquer trabalho que eu invoco essas energias, porque ainda há muitas pessoas que as desconhecem e estão envoltas nos preconceitos criados na nossa sociedade sobre essas tradições.
Mas fica o convite para quem quiser conhecer essa energia maravilhosa de libertação e alegria que nos conecta com os nossos verdadeiros propósitos, abre nossos caminhos, nos protege e nos alinha com o prazer de seguir firme e confiantes na jornada da vida.
Laroyê Exu!
Salve todas as Pombagiras!
Por Érika Fernandes Pinto, 24/06/2022.
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